Entre o profano e o transcendente

Entre o profano e o transcendente
O sagrado é uma categoria fundamental das religiões e das experiências espirituais humanas. Ele designa aquilo que é separado, distinto do mundo comum e dotado de valor absoluto. O sagrado desperta reverência, temor, respeito e, muitas vezes, proibição de contato direto, sendo contraposto ao profano, que representa o mundo cotidiano e utilitário.
A palavra “sagrado” tem origem no latim sacer, que significa “consagrado”, “separado dos usos ordinários”. Em quase todas as culturas, o sagrado é aquilo que pertence ao domínio dos deuses, dos espíritos ou das forças cósmicas – algo que não pode ser tratado de modo trivial.
O sagrado é a experiência do totalmente outro, daquilo que transcende o comum e confere sentido, ordem e valor à existência humana. Ele pode se expressar em ritos, símbolos, mitos, textos, lugares, gestos e comportamentos, sendo o núcleo em torno do qual as religiões se organizam.
Para o estudioso Émile Durkheim, o sagrado é o eixo fundamental de toda forma de religião e representa uma dimensão simbólica através da qual a sociedade expressa e reafirma sua própria coesão. Em sua obra As Formas Elementares da Vida Religiosa (1912), Durkheim não busca demonstrar a veracidade das crenças religiosas, mas compreender sua função social.
Ele observa que, em todas as religiões conhecidas, há uma separação essencial entre o sagrado e o profano. O sagrado designa tudo aquilo que é separado, interdito e investido de um valor absoluto, inspirando respeito, temor e reverência, enquanto o profano corresponde ao domínio das atividades comuns e cotidianas da vida prática. Essa separação, segundo Durkheim, é absoluta e necessária para que a religião exista, pois a sacralidade só se mantém enquanto algo é distinguido do uso ordinário e protegido por proibições.
Durkheim afirma que o sagrado não é uma propriedade inerente às coisas, mas um significado socialmente construído. Um objeto, um animal, um livro ou um ritual tornam-se sagrados porque a comunidade os consagra, projetando sobre eles o valor coletivo de sua própria existência. Dessa forma, o sagrado é uma projeção simbólica da sociedade sobre o mundo, uma maneira de a coletividade reconhecer e venerar a si mesma.
Quando um grupo adora uma divindade, ele está, de maneira inconsciente, adorando a força moral e o poder coletivo que o une. O sentimento religioso é, portanto, a emoção despertada pela presença da sociedade em nós – uma experiência de pertencimento e submissão ao conjunto de normas, valores e ideais que sustentam a vida comum.
Em suas pesquisas sobre o totemismo entre as tribos aborígenes australianas, Durkheim identificou a forma mais elementar de religião. O totem, geralmente representado por um animal ou planta, simboliza ao mesmo tempo o deus e o próprio clã. Ele é considerado sagrado porque concentra em si a energia moral da comunidade.
Para o indivíduo, o totem é o sinal visível da força coletiva que o ultrapassa e que o sustenta. Assim, o sagrado não deriva de uma realidade sobrenatural, mas da própria sociedade que, ao criar símbolos, dá corpo àquilo que é essencial para sua continuidade. O sentimento de respeito e de temor diante do sagrado é, em última instância, o reconhecimento do poder moral do grupo sobre o indivíduo.
A função do sagrado, na visão de Durkheim, é manter a coesão social e estabelecer uma ordem simbólica que distingue o puro do impuro, o permitido do proibido e o justo do injusto. A religião, ao organizar essas categorias, fornece um quadro de referência comum que orienta as condutas e fortalece os laços de solidariedade.
Mesmo nas sociedades modernas, em que as religiões tradicionais perdem força, Durkheim observa que o sentimento do sagrado continua presente em outras formas coletivas de veneração, como a pátria, a ciência, a razão ou a dignidade humana. Essas expressões seculares continuam a desempenhar o papel de unir os indivíduos em torno de valores comuns, funcionando como novas religiões civis. Assim, para Durkheim, o sagrado é a expressão simbólica da sociedade e a base sobre a qual se erguem todas as formas de moralidade e solidariedade humana.
Para Rudolf Otto, o sagrado é, antes de tudo, uma experiência vivida, uma realidade que ultrapassa o campo racional e moral e se manifesta como um sentimento profundo diante do “totalmente outro” (das ganz Andere). Em sua obra clássica O Sagrado (Das Heilige, 1917), Otto buscou compreender a essência da religiosidade não a partir de dogmas, doutrinas ou instituições, mas da consciência imediata do divino.
Ele cunhou o termo “numinoso” para designar o núcleo dessa experiência: uma presença misteriosa, fascinante e, ao mesmo tempo, terrível, que provoca no ser humano sentimentos de reverência, assombro e humildade.
Segundo Otto, o sagrado é uma categoria sui generis, isto é, única, que não pode ser reduzida a nenhuma outra forma de experiência humana – nem à moral, nem à estética, nem à intelectual. O numinoso não é algo que se compreende, mas algo que se experimenta.
É um sentimento que se impõe ao sujeito como algo exterior e superior, despertando uma consciência de dependência e pequenez diante de uma realidade transcendente. Essa experiência, para Otto, está presente em todas as religiões, das mais primitivas às mais desenvolvidas, e constitui o fundamento universal do sentimento religioso.
A estrutura do numinoso, conforme Otto, manifesta-se por meio da combinação de dois aspectos fundamentais: o mysterium tremendum e o mysterium fascinans. O primeiro designa o caráter terrível, avassalador e incompreensível do sagrado, aquilo que causa medo, tremor e reverência.
Diante do mysterium tremendum, o ser humano sente-se anulado, esmagado por uma presença de poder infinito – é o sentimento do temor religioso, diferente do medo comum, pois não se dirige a algo natural, mas ao mistério absoluto. Já o mysterium fascinans é o aspecto oposto e complementar: o sagrado também atrai, encanta e seduz. Ele desperta amor, entrega e desejo de comunhão.
Assim, o sagrado é, ao mesmo tempo, uma força que repele e fascina, que afasta e convida. Otto descreve essa dualidade como uma tensão entre o tremendo e o fascinante, presente em todas as experiências religiosas.
O fiel sente-se, simultaneamente, aterrorizado e atraído pelo divino, consciente de sua própria insignificância e, ao mesmo tempo, tomado por um sentimento de plenitude e graça. É dessa tensão que nasce a atitude de reverência, adoração e humildade diante do sagrado.
O numinoso é, portanto, uma realidade pré-racional, que antecede a formulação de crenças ou dogmas. As doutrinas religiosas, os ritos e as teologias são expressões secundárias e simbólicas desse sentimento primário que, em si, é inefável.
Para Otto, a consciência do sagrado é uma dimensão universal da experiência humana, presente mesmo em culturas sem uma concepção elaborada de Deus. O sagrado não é uma ideia construída intelectualmente, mas uma impressão imediata de um poder espiritual que transcende o mundo natural.
O sentimento numinoso pode surgir diante de fenômenos naturais grandiosos, como tempestades ou montanhas, mas sua essência não está nas coisas, e sim na resposta interior do sujeito diante do mistério que elas evocam.
Otto também insiste que a experiência do sagrado não é irracional, mas suprarracional: ela não nega a razão, mas a ultrapassa. O pensamento racional e a moralidade podem posteriormente tentar compreender e ordenar essa experiência, mas nunca esgotá-la.
É por isso que, na visão de Otto, a religião não pode ser reduzida nem à ética (como faz Immanuel Kant) nem à função social (como faz Émile Durkheim), pois sua raiz é afetiva e intuitiva.
Em síntese, para Rudolf Otto, o sagrado é o núcleo afetivo e transcendente da religião, manifestado na experiência do numinoso – uma presença misteriosa que é, ao mesmo tempo, terrível e fascinante, inspirando temor e atração.
Essa experiência revela o “totalmente outro”, uma realidade que não pode ser descrita em termos humanos e que desperta no ser humano a consciência de dependência, reverência e comunhão com o mistério divino. Enquanto Durkheim vê no sagrado uma criação social, Otto o compreende como uma vivência interior e universal do espírito humano.
Para Mircea Eliade, o sagrado é uma estrutura fundamental da consciência humana e o ponto de partida para compreender a experiência religiosa em todas as culturas. Em sua vasta obra, especialmente em O Sagrado e o Profano (1957) e O Mito do Eterno Retorno (1949), Eliade propõe que o ser humano é, por natureza, um homo religiosus.
Isto é, um ser que busca constantemente o sentido da existência e a ligação com o transcendente. O sagrado, para ele, não é apenas uma crença ou uma instituição social, mas uma forma de perceber o mundo, uma maneira de estar na realidade que confere ao homem uma orientação existencial e cósmica.
Eliade define o sagrado em oposição ao profano, que representa a dimensão cotidiana, comum e desprovida de significado transcendente. O sagrado, ao contrário, rompe a homogeneidade do mundo profano e introduz uma qualidade diferente de ser.
Quando o sagrado se manifesta, o mundo se organiza e adquire sentido. Essa manifestação é chamada por Eliade de hierofania (do grego hieros, “sagrado”, e phainein, “manifestar”).
Uma hierofania é qualquer evento, objeto ou ser através do qual o sagrado se revela — pode ser uma pedra, uma árvore, uma montanha, um rio, um gesto ritual, um mito ou uma figura divina. Nessas manifestações, o que importa não é o objeto em si, mas o que ele revela: uma realidade transcendente.
A partir da hierofania, o espaço torna-se qualitativamente diferenciado: há o espaço sagrado, centro do mundo, e o espaço profano, caótico e sem forma. O mesmo ocorre com o tempo: o tempo sagrado é o tempo primordial do mito, revivido nos rituais; o tempo profano é linear e histórico.
Por isso, para Eliade, o sagrado é aquilo que fundamenta a realidade, enquanto o profano é apenas a aparência transitória e fragmentada do mundo. O homem religioso, ao reconhecer o sagrado, recria o cosmos e reencontra o sentido de sua própria vida.
Quando ele ergue um templo, realiza um sacrifício ou celebra um rito, ele repete gestos arquetípicos realizados no início dos tempos. Essa repetição é uma reatualização do mito, um retorno ao tempo primordial.
O ritual, portanto, tem uma função ontológica: reconecta o homem ao fundamento sagrado da realidade e restaura a ordem cósmica. Diferente de Durkheim, Eliade entende que o sagrado é uma dimensão ontológica – ele não é criado pela sociedade, mas descoberto.
Eliade também vê no sagrado uma função simbólica e estruturante. Os mitos, os ritos e os símbolos religiosos são linguagens que expressam o contato do homem com o real absoluto.
Assim, o sagrado não se opõe ao racional, mas o transcende, oferecendo um horizonte de sentido que o pensamento lógico não pode alcançar.
Em síntese, para Mircea Eliade, o sagrado é a manifestação do real absoluto no mundo, a revelação de uma ordem e de um sentido que estruturam a existência humana. Ele rompe o caos do profano e funda o cosmos, o tempo, o espaço e a identidade.
O ser humano religioso vive orientado por essa presença do sagrado, que dá significado às suas ações e o conecta ao mistério da origem. Quando o homem moderno perde esse senso, rompe sua ligação com o fundamento do ser e mergulha no vazio existencial.
O sagrado, portanto, é, para Eliade, a expressão mais profunda da condição humana: a necessidade de reencontrar sentido e centro em meio ao fluxo caótico do mundo.