Velho Testamento

Banner Background

O Velho Testamento

A Bíblia é um livro de fé, de história, um guia espiritual que fornece princípios morais e leis sociais, textos de profetas e de suas profecias. Milhões de pessoas no mundo a consideram como as palavras de Deus.

As inúmeras traduções, interpretações, censuras e revisões certamente comprometeram a sua versão original. Na tradução aparentemente literal dos textos bíblicos, tida como fiel, oculta-se antes uma tradução da experiência grega para uma espécie diferente de pensamento. O pensamento romano se apropriou das palavras gregas sem a experiência correspondente, igualmente original, do que diz a palavra grega. A falta de base do pensamento ocidental começa com essa tradução. Portanto, o Antigo Testamento, escrito nos idiomas aramaico, hebraico e grego, e ensinado por tradições orais, foi traduzido e reescrito diversas vezes, para outras línguas, entre elas o grego, o latim, e posteriormente para o inglês, o francês e o alemão, muito recentemente. Martinho Lutero a traduziu no ano de 1521.

O Velho Testamento é a primeira parte da Bíblia cristã, constituída pelos livros escritos a partir de XV a.C. até o nascimento de Cristo, na época de Herodes (73-4 a.C.), o Grande, rei da Judeia. Há muitos elementos humanos nos textos e não se sabe quem agrupou e montou os livros.

Em Qumarn, um sítio arqueológico localizado na Cisjordânia, próximo da margem noroeste do Mar Morto, a 12 quilômetros de Jericó e a cerca de 22 quilômetros de Jerusalém, no ano de 1947, em uma caverna, foram descobertos jarros de argila contendo pergaminhos escritos à mão, os Manuscritos do Mar Morto. Os papiros contêm fragmentos dos trinta e nove livros do chamado Velho Testamento, e estão escritos em três idiomas, aramaico, hebraico e grego. Talvez seja a versão mais antiga do Velho Testamento conhecida. Eu tive a oportunidade de conhecer esses manuscritos em uma exposição na cidade americana de New York.

No Velho Testamento existem contradições nas histórias contadas, muitas delas duas vezes. A batalha do rei Davi e o filisteu Golias, por exemplo. Em 1 Samuel 17, 49-50, Davi matou Golias acertando-lhe a cabeça com uma pedra. No versículo seguinte, o 51, Davi matou Golias com uma espada. No livro 2 Samuel 21, 17 diz que foi Abisai, filho de Zeruia, e não Davi, quem matou Golias.

Outro exemplo, é o de Isaias 7, 14, em que, na versão em hebraico, Jesus nasceu de uma mulher: “… Eis que a jovem mulher concebera e dará à luz um filho …”. Na tradução do hebraico para o grego, foi acrescentada a palavra “virgem”, e nasceu uma tradição diferente.

Além de muitas contradições nos livros bíblicos anteriores a Cristo, também há a proibição de se usar dois tecidos, como seda e lã; a exigência de uma mulher menstruada se afastar e somente retornar após ser purificada; a possibilidade de apedrejar pessoas e a pregação da violência, o que causa muita estranheza.

O Velho Testamento tem trinta e nove livros deuteronômios, encontrados em livros católicos e evangélicos e em versões ecumênicas. Muitos desses livros não foram escritos por um único autor e parte deles foram, a princípio, transmitidos oralmente, depois escritos e reescritos, como já foi dito. Esses livros dividem-se em Pentateuco (pelos judeus é chamado de Torah ou Lei Escrita), que é composto por cinco livros; Gênese, Êxodo e Números, os três escritos entre 1000 e 400 a.C.; Deuteronômio, entre 720 e 400 a.C.; e Levítico, entre 580 e 400 a.C.

 

Livros do Pentateuco

Os primeiros onze capítulos do Gênese relatam os acontecimentos que precederam a eleição de Abraão, desde a criação até o dilúvio e a Torre de Babel. A redação desses capítulos do primeiro livro bíblico é mais recente que outros textos do pentateuco (os quatro primeiros livros da lei – Torah). É sabido que os hebreus não se interessavam pela história das origens, que narra os acontecimentos míticos do primordium.

A fonte mais antiga, javista (século X ou IX a.C.), chama Deus de Javé. A eloísta, mais recente, utiliza o nome de Elohim.

Na abertura do Gênese, Deus criou o Céu e a Terra, que estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo e um vento de Deus pairava sobre as águas (um oceano primordial).

A criação, ou seja, a organização do caos é efetuada pelo poder da palavra de Deus: “Haja luz”, e houve luz.

Esse relato bíblico apresenta uma estrutura: criação pela palavra (a palavra criadora dos deuses é atestada em outras tradições, entre os egípcios e os polinésios); um mundo que é bom; a vida, animal e vegetal, igualmente boa e abençoada por Deus; a obra cosmogônica (pertencente ao corpo de doutrinas, princípios – religiosos, míticos ou científicos – que se ocupa em explicar a origem) é coroada pela criação do homem – “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais …” (Gênese 1, 26).

A vida é penosa, apesar de ter sido abençoada por Deus. Os homens não habitarem o paraíso é resultado de erros e pecados de “âdâm” (o homem é o resultado de seus próprios atos). Deus não tem responsabilidade alguma nessa deterioração de sua obra-prima.

Javé modelou o homem com argila do solo e animou-o insuflando “em suas narinas um hálito de vida” (quanto à formação do primeiro homem com argila, o tema era conhecido na Suméria – sul da Mesopotâmia, onde atualmente se localiza o Iraque e o Kuwait). Plantou um jardim em Éden, fez brotar todas as espécies de “árvores boas” e instalou o homem no jardim. Em seguida, Javé deu forma aos animais e às aves, sempre com argila, levou-os a Adão e este lhes deu nomes (traço das reflexões a respeito do sentido abrangente do ser –, arcaicas; os animais e as plantas passam a existir a partir do momento em que lhes dão nomes). Finalmente, depois de fazer o homem adormecer, Javé tirou uma de suas costelas e formou uma mulher, que recebeu o nome de “hawwâh” (Eva).

O relato javista não opõe o “caos” aquático ao mundo das “formas”, que era deserto e com vida e vegetação secas.

O jardim do Éden, com o seu rio que dividia em quatro afluentes e levava a vida às quatro regiões da Terra e as árvores que Adão devia guardar e cultivar, lembra o imaginário mesopotâmico (é provável que o relato utilize certa tradição babilônica – a Babilônia ficava na região centro-sul da Mesopotâmia). O mito de um paraíso original, habitado pelo homem primordial e o mito de um lugar paradisíaco, dificilmente acessível aos seres humanos (o centro do mundo), eram conhecidos além do Eufrates e do Mediterrâneo, portanto possivelmente copiado pelos hebreus.

No meio do jardim elevavam-se a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal (Gênese 2, 9). Javé deu ao homem o seguinte mandamento: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer.” (Gênese 2, 16-17). Destaca-se dessa proibição o “valor existencial do conhecimento”. Entretanto, a serpente conseguiu tentar Eva. Temos, em síntese, uma imortalização malograda, como a de Gilgamesh.

Deus pôs o casal para fora do paraíso e condenou-o a trabalhar para viver. O fracasso de Adão foi uma punição justificada: sua desobediência denunciava o seu orgulho, o desejo de assemelhar-se a Deus.

Segundo os autores dos capítulos 4 a 7 do Gênese, o pecado original (esse primeiro pecado) não só acarretou a perda do paraíso e a transformação da condição humana, mas tornou-se de algum modo a fonte de todas as desventuras que se abateram sobre a humanidade.

Eva deu à luz Caim, que cultivava o solo, e Abel, pastor de ovelhas. Quando os irmãos ofereceram o sacrifício de gratidão – Caim, produtos do solo, e Abel, do seu rebanho –, Javé acolheu a oferenda de Abel, mas não a de Caim (a oposição entre lavradores e pastores), que se lançou sobre o irmão e o matou (Gênese 4,8).

O primeiro assassinato é, portanto, cometido por aquele que encarna o símbolo da tecnologia e da civilização urbana, pois Caim significa “ferreiro” (senhor do fogo).

O dilúvio foi o acontecimento marcante: “Javé viu que a maldade do homem era grande sobre a Terra, e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração.” (Gênese 6, 5). Deus arrependeu-se (o arrependimento do criador, onisciente?) de ter criado o homem e decidiu acabar com a sua espécie. Apenas Noé, sua mulher e seus filhos (Sem, Cã e Jafé), acompanhados das respectivas esposas, seriam salvos. “Noé era um homem justo, … e andava com Deus.” (Gênese 6, 10).

O zigurate (uma forma de templo, criada pelos sumérios e comum para os babilônios e assírios, pertinente à época do antigo vale da Mesopotâmia e construído na forma de pirâmides terraplanadas), segundo o que se pensava, tinha sua base no umbigo da Terra e o cume no Céu. Ao galgar os andares de um zigurate, o rei ou o sacerdote chegavam ritualmente ao Céu.

Os redatores do Gênese conservaram toda uma mitologia de tipo tradicional: ela começa com a cosmogonia e a formação do homem, evoca a existência paradisíaca dos antepassados, relata o drama da “queda”, com suas consequências fatais (mortalidade, obrigação de trabalhar para viver etc.), recorda a degenerescência progressiva da primeira humanidade, a qual justifica o dilúvio, e conclui com um último episódio, a perda da unidade linguística e a dispersão da segunda humanidade, pós-diluviana, consequência de um novo projeto. Explora a origem do mundo e, ao mesmo tempo, a atual condição humana.

O décimo segundo capítulo do Gênese introduz o leitor em um mundo religioso novo. Javé diz a Abraão (o nome Javé somente foi revelado por Moisés, portanto posterior a Abraão): “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, vai para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma benção! Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Por ti serão benditos todos os clãs da Terra” (Gênese 12, 1-3).

Abraão é escolhido de Deus para se tornar o ancestral do povo de Israel e tomar posse de Canaã. Assim começa a história da religião de Israel, relatada entre os capítulos 46 e 50 do Gênese, no Êxodo e no livro dos Números.

Trata-se de uma série de acontecimentos, em sua maioria provocados diretamente por Deus. Os mais importantes são a instalação de Jacó e seus filhos no Egito; a perseguição desencadeada alguns séculos mais tarde, por um faraó que ordenou o extermínio dos primogênitos dos israelitas; as peripécias de Moisés depois de haver matado um soldado egípcio que moía de pancadas um de seus irmãos –  especialmente sua fuga no deserto de Mediã, a aparição da sarça de fogo (seu primeiro encontro com Javé), a missão, que lhe foi dada por Deus, de tirar seu povo do Egito e a revelação do nome do divino –; as dez pragas provocadas por Javé para forçar o consentimento do faraó; a partida dos israelitas e sua passagem do mar dos Caniços, cujas águas submergiram os carros e os soldados egípcios que os haviam perseguido; a manifestação de Deus sobre o monte Sinai, a aliança estabelecida por Javé com o seu povo, acompanhada de instruções relativas ao conteúdo da revelação e ao culto; finalmente, os 40 anos de marcha sobre o deserto, a morte de Moisés e a conquista de Canaã sob o comando de Josué.

Há um esforço dos estudiosos para dissociar os elementos históricos dessas narrativas dos mitos e folclores (milagres como as dez pragas ou a travessia do mar dos Caniços não podiam ser considerados acontecimentos históricos). Não se conseguiu recuperar a historicidade de certos acontecimentos de importância para a religião de Israel.

O Deus dos hebreus é um deus dos nômades, que não está ligado a um santuário, mas a um grupo de homens, a quem acompanha e protege. O javismo nasce num meio de pastores e se desenvolve no deserto.

Pensava-se que Moisés tivesse sido o principal escritor dos livros do Pentateuco, tendo o relato de sua morte sido escrito por Josué. Porém, com os avanços dos estudos a partir do século XVIII, observou-se que os livros tinham inúmeros estilos literários e que as tradições e as teologias eram bastante distintas. As tradições a que nos referimos são a sacerdotal, a deuteronômica, a javista (dá a Deus o nome de Iahweh – Javé, e que se originou provavelmente no tempo de Salomão, em torno de 950 a.C., em Jerusalém), a eloísta (dá a Deus o nome de Elohim  e nasceu por volta de 750 a.C., no reino do Norte, depois que o reino unido de Davi-Salomão se dividiu em dois; é muito marcada pela mensagem de profetas como Elias e Oseias), e outras. Os livros do Pentateuco foram iniciados em períodos diferentes, em que existiam múltiplas tradições.

Os escritos começaram no período monárquico (os reinos de Judá e de Jerusalém, cada um governado por dezenove reis, por 200 e 400 anos, respectivamente) e receberam uma versão final no período persa (século V), nos tempos de Esdras e Neemias (livros reconhecidos pela Bíblia judaica).

O Gênese, como já mencionado, é o livro cosmológico da Bíblia. Narra como tudo o que existe começou, ilustra como Deus escolheu Abraão e o povo judeu, sobre seu filho Isaque, Jacó, o filho de Isaque, e sobre os doze fundadores da tribo de Israel.

Êxodo conta sobre a escravização do povo judeu e a saída do Egito, onde viviam. Nesse livro são citadas as dez pragas enviadas ao Egito para que o povo fosse libertado. Após tantas adversidades, o faraó egípcio consentiu em libertar o povo judeu. O ápice dessa trajetória ocorre diante do Mar dos Caniços, quando Deus fala e ordena a Moisés tocar com o cajado no mar para que ele se abrisse e o povo passasse, que era perseguido pelo exército grego. Os judeus passaram a viver no deserto e nesse tempo surgem as leis da arca da Aliança.

Em 1600 a.C. os israelitas eram um pequeno grupo de nômades: Jacó, neto de Abraão, mais seus filhos, netos e as várias esposas de cada um. Na terra de Canaã viviam os jebuseus, gesuritas, jebedeus (tribos de cananeus, filisteus), cada um numa pequena cidade independente. A escravidão era a base da economia local e negociar escravos para fazerem o trabalho pesado permitia a manutenção de um exército de cidadãos do império. Então, os judeus que viveram por 400 anos no Egito não foram todos escravizados, somente alguns; não se trata do êxodo do povo inteiro, mas apenas de um grupo, aquele conduzido por Moisés. Outros grupos já tinham iniciado a conquista mais ou menos pacífica em Canaã.

O povo egípcio era urbano, vivia em cidades ao longo das margens do rio Nilo, como Mênfis, Tebas, Heliópolis. Do outro lado do mar, onde o rio desemboca, ficava a civilização Micênica, que daria origem à cultura grega.

Naquela época os israelitas cultuavam os deuses cananeus: El, Baal, Asherah. O Deus israelita, Javé, provavelmente foi importado de outra cultura e ganhou traços de El e de Baal. Embora o Antigo Testamento afirme ter havido um grande êxodo, ele foi de um grupo de escravos judeus.

O nome de Moisés, como os de outros membros de sua família, é egípcio. Contém o elemento msy, “nascido filho”, comparável a Amósis ou Ramsés (Ra-messés, “filho de Rá). Não está excluída a hipótese de Moisés ter tido conhecimento da reforma de Akhenaton (faraó egípcio, 1375-1350 a.C.), que substituía o culto de Amon pelo monoteísmo solar de Aton (Aton é proclamado o único deus). Tal como Javé, ele é o deus que cria tudo o que existe e a importância concedida pela reforma de Akhenaton à instrução é comparável ao papel da torah no javismo.

Enquanto apascentava os carneiros de Jetro, seu sogro e sacerdote de Madiã, Moisés chegou, pelo deserto, ao “monte de Deus”, o Herebe. Foi ali que ele viu “uma chamada de fogo que saía do meio de uma sarça” e ouviu alguém o chamar pelo nome. Deus se deu a conhecer como o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, O Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Êxodo 3, 6). Então Deus disse-lhe: “Eu sou aquele que é (‘ehyéh ‘ áser ‘ ehyéh). Eu sou me enviou até vós” (Êxodo 13, 14).

A revelação está concentrada no decálogo (Êxodo 20, 3-17) e reflete o espírito do javismo primitivo. O primeiro artigo do decálogo, “Não terás outros deuses diante de mim!”, demonstra que a existência de outros deuses não é descartada. Pede-se, porém, a fidelidade absoluta, pois Javé é um Deus que tem ciúmes (Êxodo 20, 5). A luta contra os falsos deuses começa imediatamente após a saída do deserto, em Ball Peor (foi ali que as filhas dos moabitas convidaram os israelitas a participar dos sacrifícios aos seus deuses).

O sentido do segundo mandamento, “Não farás para ti imagem”, provavelmente implicava a proibição de representar Javé por um objeto cultual. Assim como não tinha nome, Javé não devia ter imagem. Deus consentia em ser visto, diretamente, por alguns privilegiados; pelos outros homens, por seus atos.

Javé não reflete, como a maioria das divindades, a situação humana: não tem uma família, mas tão somente uma corte celeste. Javé é só e único.

De acordo com o relato da Bíblia, três meses depois da saída do Egito, no deserto de Sinai, teve lugar a revelação de Javé. “Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé descera sobre ela no fogo; sua fumaça subiu como a fumaça de uma fornalha, e toda a amontanha tremia violentamente. O som da trombeta aumentava pouco a pouco; Moisés falava e Deus lhe respondia no trovão” (Êxodo 19, 18-19). Javé apareceu então aos israelitas que permaneceram no sopé da montanha e com eles firmou uma aliança, ditando o Código da Aliança, que abre com o decálogo e compreende muitas prescrições relativas ao culto (Êxodo 20, 22 e 24-26).

Mais tarde, Moisés teve uma nova entrevista com Javé e recebeu “as duas tábuas do Testemunho, tábuas de pedras escritas pelo dedo de Deus”. (Êxodo 31, 18).

A revelação de que Moisés foi intermediário fez dele, ao mesmo tempo, um profeta extático e oracular e um “mágico”; o modelo dos sacerdotes levíticos e o chefe carismático por excelência, que conseguiu transformar um grupo de clãs em um núcleo de nação, o povo de Israel.

Números descreve a libertação do povo judeu da escravidão no Egito, por Moisés, a fuga, o caminho do povo perambulando pelo deserto, antes de conhecerem a terra prometida, Canaã.

Especialistas comentam que os textos são a ordem que Deus deu aos israelitas para conquistar a terra prometida, se necessário fosse, para chacinarem qualquer habitante daquele lugar, para então Canaã ser dada aos judeus. O nome Números refere-se à contagem dos homens acima de 20 anos que poderiam ir à guerra. O livro trata de censos e das ofertas de cada uma das tribos (grupos). Números descreve a murmuração e a rebeldia do povo judeu sobre a condição em que estavam vivendo.

A emigração levou 40 anos: 600 mil homens, sem contar mulheres e crianças, o que talvez fosse muito próximo do número de homens da população egípcia da época, que era menor do que 3 milhões de habitantes. Isso remete à ideia de que, na verdade, houve um pequeno grupo que fugiu da escravidão e foi para Israel, criando uma sociedade com base nas antigas tradições.

“Assim partiram os filhos de Israel de Ramessés para Sucote, cerca de seiscentos mil a pé, somente de homens, sem contar os meninos.” (Êxodo 12, 37).

Deuteronômio contém as últimas palavras de Moisés aos israelitas antes de entrarem na terra de Canaã, com Josué como líder. Deuteronômio significa “segunda lei” ou “repetição da lei”, e em seus sermões, Moisés repetiu ao povo judeu as leis e os mandamentos que faziam parte de seu pacto com o Deus, antes da travessia do rio Jordão. Moisés também exortou os israelitas a lembrarem-se de guardar seus convênios quando lhes ensinou as consequências tanto da obediência quanto da desobediência às leis e aos mandamentos divinos.

Ao chegarem a Canaã, os patriarcas são confrontados com o culto do deus El.

Entretanto, nada de preciso se sabe sobre o culto celebrado pelos israelitas durante os 40 anos passados no deserto. O Êxodo 26 e o 38, 8-18, descrevem minuciosamente o santuário do deserto, a “Tenda do Encontro”, que abriga a arca do Testemunho, ou a arca da Aliança, um cofre de madeira que contém, segundo a tradição tardia, as tábuas das leis (Deuteronômio 10, 1-15). Provavelmente havia tendas ou palanquins cultuais, nos quais eram carregados os ídolos de pedra. Também é provável que a tenda recobrisse a arca, que simbolizava a presença do invisível.

Levítico significa “com respeito aos levitas”, a descendência da tribo de Levi. Portanto foi um livro escrito pelos levitas, responsáveis por cuidarem do tabernáculo. O livro fala de santidade, sacrifícios, rituais de pureza, as obrigações sociais, e apresenta os detalhes de como o povo deveria adorar a Deus e como se relacionar uns com os outros. Está indicado que a linhagem de Arão é que cuidará do sacerdócio. Inicia-se o compromisso dos crentes com o dízimo, para que se sustentasse os sacerdotes e aqueles que cuidavam dos tabernáculos.

Os estudiosos acreditam que os cinco livros do Pentateuco foram escritos, a partir de diversas origens, com base em fontes orais conhecidas havia séculos e sua produção final foi cerca de 800 anos após a morte de Moisés, que teria vivido por volta de 1300 a.C. (portanto em 500 a.C.).

A explicação mais comum para o sofrimento humano é a de que Deus está punindo o homem por ter cometido (e cometer) o pecado. O sofrimento é uma punição pelo pecado. O sofrimento do povo judeu se dá: 1-Deus escolheu o povo de Israel como seu povo especial; 2-Abraão foi escolhido como o pai da nação; 3-na segunda geração de Abraão sua família foi obrigada a ir para o Egito para fugir da fome de Israel; 4-os egípcios escravizaram o povo de Israel; 5-Moisés é o responsável pelo resgate do povo judeu; 6-Deus conduziu o seu povo até o monte Sinai, onde deu a Moisés os Dez Mandamentos e o restante da lei judaica e fez o “pacto da paz”.

Depois dos livros dos Pentateucos, seguem os livros históricos: Josué, Juízes e Primeiro e Segundo Livros de Samuel, e Primeiro e Segundo Livros de Reis. Todos datam de 1000 a 400 a.C. Esses livros contém diversas tradições e diferentes estilos literários e é muito provável que tenham sido concluídos durante o cativeiro babilônico dos judeus (século VI a.C.), até os tempos de Esdras.

 

Livros históricos

O livro de Josué relata a entrada dos israelitas na terra prometida sob a liderança do profeta, sucessor de Moisés, e responsável por comandar a conquista de Canaã. O texto explica, ao longo de vinte e quatro capítulos, a história de como os israelitas conquistaram a terra prometida. Fala sobre as batalhas do povo judeu (a batalha de Jericó, por exemplo) e sobre a divisão das terras entre as doze tribos israelitas.

Juízes narra a história de Israel desde a conquista de Canaã até o começo da monarquia. Canaã ficou sem rei e havia muitas pequenas tribos, com culturas diversas e influenciadas por estrangeiros. Nesse tempo surgiram os líderes conhecidos como “Juízes” (Otniel, Eúde, Sangar, Gideão, Jefté, Ibsã, Elom, Abdom, Samuel). Entretanto, após a morte de Josué, as doze tribos de Israel ficaram sem lideranças que as orientassem na defesa contra os povos estrangeiros, os filis­teus, moabitas, cananeus e amonitas (as únicas autoridades eram os anciãos de cada uma das tribos). A conquista total da terra só ocorreu no tempo do rei Davi.

Denomina-se época dos juízes o período que se estende desde 1.200 a.C., quando o grupo de Moisés chegou a Canaã guiado por Josué, até 1.020 a.C., quando Saul foi proclamado rei. Os juízes eram chefes militares, conselheiros e magistrados. Durante esse período, aceitaram o javismo, sobretudo depois de certas vitórias, pois Javé interveio diretamente na batalha. Ele certificou a Josué: “Não temas: eu os entregarei nas tuas mãos!” (Josué 10, 8).

O javismo modificou-se. A partir de então, o culto era praticado nos santuários e sítios sagrados. Após a associação Javé-El, os santuários pré-javistas da religião cananeia, foram dedicados a Javé. Também se fazia confusão entre Javé e Baal, provavelmente venerado ao lado de Javé – “Baal combate” (Juízes 6,32).

O sistema sacrificatório cananeu foi em grande parte adotado. A forma mais simples de sacrifício consistia na oferenda de diferentes dádivas ou em libações de óleo ou água. As oferendas eram consideradas um alimento para a divindade (Juízes 6, 19). Foi nesse momento que os israelitas começaram a praticar o holocausto (‘olah), por eles interpretado como uma oblação oferecida a Javé. Eles tomaram emprestadas muitas práticas cananeias relacionadas com a agricultura e até certos ritos orgiásticos. O processo intensificou-se sob a monarquia, quando se ouvia falar em prostituição sagrada de ambos os sexos.

O Primeiro Livro de Samuel discorre sobre o ministério do profeta e o último dos juízes, que restaurou a lei e a ordem religiosa. Acredita-se que o livro reúne diferentes fontes documentárias independentes, porém convergentes. O texto trata da transição de uma forma de governo, teocrática, para outra, monárquica. Após passar muitos anos como uma confederação tribal governada de modo esporádico e irregular pelos juízes, os israelitas queriam ter um rei, como tinham as outras nações.

Saul foi o primeiro rei do povo judeu em Canaã. Samuel advertiu aos israelitas sobre o que lhes adviria se decidissem ser governados por um rei. Depois de ter sido ungido por Samuel, Saul recebeu o “espírito de Javé” (Samuel 10, 6), pois o rei era o ungido de Deus (Samuel 24, 7-11; 26, 9-11 e 16, 23); ele tornava-se de certa forma seu filho, legitimado por uma declaração especial. Javé concede-lhe o domínio universal (Salmo 72, 8) e o rei senta-se ao seu trono ao lado de Deus (Salmo 110, 1 e 5; I Crônicas 28, 5 e 29, 23). O soberano é o representante de Javé, pertence à esfera divina, porém é Javé que detém o papel central e não o rei.

Um grupo inteiro de salmos, os “salmos da entronização”, exalta Javé como rei. Ele é “um rei grande sobre todos os deuses” (Salmos 95, 3); “Javé é rei, os povos estremecem! … O rei que ama a justiça és tu; tu estabeleceste as normas da probidade, da justiça e do direito.” (Salmos 99, 1-5).

Samuel, quando envelheceu, constituiu seus filhos juízes em Israel. Estes, porém, não seguiram o seu exemplo e os anciãos vieram ter com ele e lhe disseram: “Constitui sobre nós um rei, o qual exerça a justiça entre nós, como acontece com todas as nações.” (Samuel 8, 1-5).

Acredita-se que esse livro formava originalmente uma só obra com Segundo Livro de Samuel, Primeiro e Segundo Livros de Reis. O livro inclui o reinado de Saul, as guerras dos filisteus, e de outros povos vizinhos, contra Israel e a grande façanha de Davi (mais tarde, rei de Israel), ao derrotar o gigante Golias.

O Segundo Livro de Samuel começa narrando a ascensão de Davi e seu governo como rei de Judá e depois de Israel (é um livro que conta as conquistas de Davi). Relata os adultérios e estupros cometidos por Davi e de seus filhos, Amnom e Absalão, e mostra a tristeza e as tragédias que acompanharam a violação dos mandamentos. Também nesse livro é mencionado o transporte da arca da Aliança, que se torna o centro do poder político na região.

A realeza foi interpretada como uma nova aliança entre Javé e a dinastia de Davi.

Os dois livros de Reis mostram que cada rei é julgado de acordo com a sua fidelidade a Deus. O Primeiro Livro de Reis traz informações sobre um contexto que começou no livro de Samuel, que é a história dos reis israelitas. Saul foi o primeiro rei de Israel e Davi, o segundo. Após a morte da Davi, seu filho Salomão herda o trono e um dos destaques de seu reinado foi construir um grande templo, conhecido atualmente como “Templo de Salomão”. O livro, portanto, menciona a ascensão de Salomão e conta sobre cento e vinte anos do povo hebreu e a divisão em dois reinos, Judá e Israel.

Salomão construiu o templo em Jerusalém próximo ao palácio real: ele associa, assim, o culto do santuário à monarquia hereditária. O templo passa a ser a residência de Javé entre os israelitas. A arca da Aliança, que então acompanhava os exércitos, é instalada no “Santo dos Santos”. O templo, construído emprestando formas cananeias, torna-se o santuário nacional e o culto real identifica-se com a religião do Estado de Israel. Os rituais são de expiação para a coletividade e preces públicas em favor do rei, de sua glória e pelo exercício de sua justiça que assegura “a paz do povo” e a prosperidade (Salmos 20 e 72).

Com a morte de Salomão, o reino dividiu-se em dois: o do Norte ou de Israel, e o do Sul ou de Judá. Como a arca ficara em Jerusalém e as tribos do norte não tinham acesso ao santuário comum, Jeroboão, o primeiro rei de Israel, instalou dois santuários, em Betel e em Dã, onde Javé era adorado na forma de dois bezerros de ouro (1 Reis 12, 28-29). A religião cananeia proibia as imagens e essa inovação agravou o desentendimento entre os reinos do norte e do sul.

O Segundo Livro de Reis relata a história dos dois reinos, do Norte e do Sul. O primeiro com a queda de Samaria e o segundo com a conquista de Jerusalém pelo rei babilônico Nabucodonosor. A queda dos reinos de Israel acontece porque seus reis haviam sido infiéis com os princípios de Deus, segundo os relatos.

Os outros livros, Salmos e Provérbios, foram escritos a partir do ano 1000 a.C. Esses textos, segundo alguns historiadores, foram adaptados e remodelados para atenderem a interesses do povo israelita (tenho a opinião de que a maioria dos textos bíblicos, assim como de outras religiões universais que conhecemos hoje, foram adaptados buscando interesses de grupos religiosos, étnicos, sociais, econômicos e diversos outros, ao longo do tempo – no caso específico da Bíblia, após tê-la lido, não me furto desse convencimento).

Os textos canônicos de Salmos assemelham-se com os poemas do ugarítico, do século II. Podem ser datados dos períodos monástico, persa (período no qual os gregos da antiguidade designavam o território governado pelos reis da dinastia fundada pelo rei Aquemênes da Pérsia,  conquistas territoriais empreendidas por Dario I e Xerxes I) e helenístico (referente ao período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C. e a anexação da península grega e ilhas por Roma em 146-30 a.C.).

Se compararmos os Salmos com os manuscritos encontrados em Uran (os Salmos extra canônicos), o Saltério e o livro Provérbios tiveram sua forma final no século I.

Javé é o Deus vivo; ele se distingue tanto dos ídolos que não falam e que devem ser carregados, porque podem caminhar (Jeremias 10, 5), quanto dos homens, “semelhantes à erva que cresce” (Salmo 10, 5). O homem também é Javé, uma vez que Deus insuflou o “sopro” ou “espírito” (rûah); mas sua existência é de curta duração. Deus é senhor do mundo porque foi seu criador. Reside no Céu e manifesta sua presença ou sua vontade nos fenômenos como relâmpago, trovão, chuva.

Enquanto Deus é espírito, o homem é carne. Essa oposição frisa a precariedade e o caráter efêmero da existência humana, que contrasta com a onipotência e a eternidade de Deus (o homem é uma criatura de Deus).

A mortalidade do homem é consequência do desejo de Adão de tornar-se semelhante a Deus; ela reduz o homem a uma pós-existência no sheol, região escura nas profundezas da Terra. Já que a morte é, por excelência, a negação da sua obra, Javé não reina sobre o sheol, e o morto está privado de relacionar-se com Deus. No entanto, Javé é mais poderoso que a morte: se o desejasse, poderia arrancar o homem da sua sepultura. Alguns salmos aludem a esse prodígio: “Do sheol tiraste a minha alma; tu me reavivaste dentre os que baixam à cova.” (Salmos 30, 4).

O homem se distingue das outras criações, pois foi formado à imagem de Deus e reina sobre a natureza. A sua mortalidade é consequência do pecado original. O homem foi tirado do pó e ao pó retornará (Gênese 3, 19).

Salmos é um livro de orações e hinos da Bíblia. Ele contém cânticos de adoração que foram compostos por um longo período da história de Israel.

Provérbios é poético e sapiencial e levanta questões sobre valores, comportamento moral e o significado da vida humana. O tema recorrente é que “o temor a Deus – a submissão à vontade de Deus – é o princípio da sabedoria”. A sabedoria é elogiada e deve ser o objetivo da vida religiosa, segundo o livro, que é composto por “ditos” e poesias de tipos variados, entre elas “instruções”.

O livro é uma coletânea de trechos literários em seis unidades discretas. A primeira, capítulos 1 a 9, foi provavelmente a última a ser composta, já nos períodos persa e helenístico, que se  caracterizou pela difusão da civilização e cultura gregas (550-146 a.C.). Essa seção é similar a outros textos cuneiformes mais antigos. A segunda, do capítulo 10 a 22, 16, tem o título de “Provérbios de Salomão”. O que pode ter incentivado a sua adoção foi a Bíblia hebraica. A terceira, cujo título é “Inclina o teu ouvido e ouve as palavras do sábio” (Provérbios 22, 17), é uma versão hebraica de uma obra egípcia do segundo milênio a.C., a Instrução de Amenemope (é uma obra literária composta no Antigo Egito, muito provavelmente durante o período do reinado Ramsés II; contém trinta capítulos de conselhos para uma vida bem sucedida, ostensivamente escrito pelo escriba Amenemope, filho de Kanakht, como um legado para seu filho). É possível que ela tenha chegado às mãos do autor (ou autores) através de uma tradução aramaica. Em 24, 23 começa uma nova seção, de outra fonte, com o título de “Estes também são provérbios dos sábios”. A seção seguinte começa em 25, 1, e tem um título que indica que os provérbios seguintes foram transcritos “pelos homens de Ezequias”, o que indica que foram colecionados durante o reinado de Ezequias, no final do século VIII a.C.. Os capítulos 30 e 31,  “palavras de Agur”, as “palavras do rei Lemuel”, são apêndices, bem diferentes em estilo e na ênfase, dos capítulos anteriores.