Velho Testamento

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O Velho Testamento

A Bíblia é um livro de fé, de história, um guia espiritual que fornece princípios morais e leis sociais, textos de profetas e de suas profecias. Milhões de pessoas no mundo a consideram como as palavras de Deus.

As inúmeras traduções, interpretações, censuras e revisões certamente comprometeram a sua versão original. Na tradução aparentemente literal dos textos bíblicos, tida como fiel, oculta-se antes uma tradução da experiência grega para uma espécie diferente de pensamento. O pensamento romano se apropriou das palavras gregas sem a experiência correspondente, igualmente original, do que diz a palavra grega. A falta de base do pensamento ocidental começa com essa tradução. Portanto, o Antigo Testamento, escrito nos idiomas aramaico, hebraico e grego, e ensinado por tradições orais, foi traduzido e reescrito diversas vezes, para outras línguas, entre elas o grego, o latim, e posteriormente para o inglês, o francês e o alemão, muito recentemente. Martinho Lutero a traduziu no ano de 1521.

O Velho Testamento é a primeira parte da Bíblia cristã, constituída pelos livros escritos a partir de XV a.C. até o nascimento de Cristo, na época de Herodes (73-4 a.C.), o Grande, rei da Judeia. Há muitos elementos humanos nos textos e não se sabe quem agrupou e montou os livros.

Em Qumarn, um sítio arqueológico localizado na Cisjordânia, próximo da margem noroeste do Mar Morto, a 12 quilômetros de Jericó e a cerca de 22 quilômetros de Jerusalém, no ano de 1947, em uma caverna, foram descobertos jarros de argila contendo pergaminhos escritos à mão, os Manuscritos do Mar Morto. Os papiros contêm fragmentos dos trinta e nove livros do chamado Velho Testamento, e estão escritos em três idiomas, aramaico, hebraico e grego. Talvez seja a versão mais antiga do Velho Testamento conhecida. Eu tive a oportunidade de conhecer esses manuscritos em uma exposição na cidade americana de New York.

No Velho Testamento existem contradições nas histórias contadas, muitas delas duas vezes. A batalha do rei Davi e o filisteu Golias, por exemplo. Em 1 Samuel 17, 49-50, Davi matou Golias acertando-lhe a cabeça com uma pedra. No versículo seguinte, o 51, Davi matou Golias com uma espada. No livro 2 Samuel 21, 17 diz que foi Abisai, filho de Zeruia, e não Davi, quem matou Golias.

Outro exemplo, é o de Isaias 7, 14, em que, na versão em hebraico, Jesus nasceu de uma mulher: “… Eis que a jovem mulher concebera e dará à luz um filho …”. Na tradução do hebraico para o grego, foi acrescentada a palavra “virgem”, e nasceu uma tradição diferente.

Além de muitas contradições nos livros bíblicos anteriores a Cristo, também há a proibição de se usar dois tecidos, como seda e lã; a exigência de uma mulher menstruada se afastar e somente retornar após ser purificada; a possibilidade de apedrejar pessoas e a pregação da violência, o que causa muita estranheza.

O Velho Testamento tem trinta e nove livros deuteronômios, encontrados em livros católicos e evangélicos e em versões ecumênicas. Muitos desses livros não foram escritos por um único autor e parte deles foram, a princípio, transmitidos oralmente, depois escritos e reescritos, como já foi dito. Esses livros dividem-se em Pentateuco (pelos judeus é chamado de Torah ou Lei Escrita), que é composto por cinco livros; Gênese, Êxodo e Números, os três escritos entre 1000 e 400 a.C.; Deuteronômio, entre 720 e 400 a.C.; e Levítico, entre 580 e 400 a.C.

 

Livros do Pentateuco

Os primeiros onze capítulos do Gênese relatam os acontecimentos que precederam a eleição de Abraão, desde a criação até o dilúvio e a Torre de Babel. A redação desses capítulos do primeiro livro bíblico é mais recente que outros textos do pentateuco (os quatro primeiros livros da lei – Torah). É sabido que os hebreus não se interessavam pela história das origens, que narra os acontecimentos míticos do primordium.

A fonte mais antiga, javista (século X ou IX a.C.), chama Deus de Javé. A eloísta, mais recente, utiliza o nome de Elohim.

Na abertura do Gênese, Deus criou o Céu e a Terra, que estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo e um vento de Deus pairava sobre as águas (um oceano primordial).

A criação, ou seja, a organização do caos é efetuada pelo poder da palavra de Deus: “Haja luz”, e houve luz.

Esse relato bíblico apresenta uma estrutura: criação pela palavra (a palavra criadora dos deuses é atestada em outras tradições, entre os egípcios e os polinésios); um mundo que é bom; a vida, animal e vegetal, igualmente boa e abençoada por Deus; a obra cosmogônica (pertencente ao corpo de doutrinas, princípios – religiosos, míticos ou científicos – que se ocupa em explicar a origem) é coroada pela criação do homem – “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais …” (Gênese 1, 26).

A vida é penosa, apesar de ter sido abençoada por Deus. Os homens não habitarem o paraíso é resultado de erros e pecados de “âdâm” (o homem é o resultado de seus próprios atos). Deus não tem responsabilidade alguma nessa deterioração de sua obra-prima.

Javé modelou o homem com argila do solo e animou-o insuflando “em suas narinas um hálito de vida” (quanto à formação do primeiro homem com argila, o tema era conhecido na Suméria – sul da Mesopotâmia, onde atualmente se localiza o Iraque e o Kuwait). Plantou um jardim em Éden, fez brotar todas as espécies de “árvores boas” e instalou o homem no jardim. Em seguida, Javé deu forma aos animais e às aves, sempre com argila, levou-os a Adão e este lhes deu nomes (traço das reflexões a respeito do sentido abrangente do ser –, arcaicas; os animais e as plantas passam a existir a partir do momento em que lhes dão nomes). Finalmente, depois de fazer o homem adormecer, Javé tirou uma de suas costelas e formou uma mulher, que recebeu o nome de “hawwâh” (Eva).

O relato javista não opõe o “caos” aquático ao mundo das “formas”, que era deserto e com vida e vegetação secas.

O jardim do Éden, com o seu rio que dividia em quatro afluentes e levava a vida às quatro regiões da Terra e as árvores que Adão devia guardar e cultivar, lembra o imaginário mesopotâmico (é provável que o relato utilize certa tradição babilônica – a Babilônia ficava na região centro-sul da Mesopotâmia). O mito de um paraíso original, habitado pelo homem primordial e o mito de um lugar paradisíaco, dificilmente acessível aos seres humanos (o centro do mundo), eram conhecidos além do Eufrates e do Mediterrâneo, portanto possivelmente copiado pelos hebreus.

No meio do jardim elevavam-se a árvore da vida e a árvore da ciência do bem e do mal (Gênese 2, 9). Javé deu ao homem o seguinte mandamento: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás de morrer.” (Gênese 2, 16-17). Destaca-se dessa proibição o “valor existencial do conhecimento”. Entretanto, a serpente conseguiu tentar Eva. Temos, em síntese, uma imortalização malograda, como a de Gilgamesh.

Deus pôs o casal para fora do paraíso e condenou-o a trabalhar para viver. O fracasso de Adão foi uma punição justificada: sua desobediência denunciava o seu orgulho, o desejo de assemelhar-se a Deus.

Segundo os autores dos capítulos 4 a 7 do Gênese, o pecado original (esse primeiro pecado) não só acarretou a perda do paraíso e a transformação da condição humana, mas tornou-se de algum modo a fonte de todas as desventuras que se abateram sobre a humanidade.

Eva deu à luz Caim, que cultivava o solo, e Abel, pastor de ovelhas. Quando os irmãos ofereceram o sacrifício de gratidão – Caim, produtos do solo, e Abel, do seu rebanho –, Javé acolheu a oferenda de Abel, mas não a de Caim (a oposição entre lavradores e pastores), que se lançou sobre o irmão e o matou (Gênese 4,8).

O primeiro assassinato é, portanto, cometido por aquele que encarna o símbolo da tecnologia e da civilização urbana, pois Caim significa “ferreiro” (senhor do fogo).

O dilúvio foi o acontecimento marcante: “Javé viu que a maldade do homem era grande sobre a Terra, e que era continuamente mau todo o desígnio do seu coração.” (Gênese 6, 5). Deus arrependeu-se (o arrependimento do criador, onisciente?) de ter criado o homem e decidiu acabar com a sua espécie. Apenas Noé, sua mulher e seus filhos (Sem, Cã e Jafé), acompanhados das respectivas esposas, seriam salvos. “Noé era um homem justo, … e andava com Deus.” (Gênese 6, 9).

O zigurate (uma forma de templo, criada pelos sumérios e comum para os babilônios e assírios, pertinente à época do antigo vale da Mesopotâmia e construído na forma de pirâmides terraplanadas), segundo o que se pensava, tinha sua base no umbigo da Terra e o cume no Céu. Ao galgar os andares de um zigurate, o rei ou o sacerdote chegavam ritualmente ao Céu.

Os redatores do Gênese conservaram toda uma mitologia de tipo tradicional: ela começa com a cosmogonia e a formação do homem, evoca a existência paradisíaca dos antepassados, relata o drama da “queda”, com suas consequências fatais (mortalidade, obrigação de trabalhar para viver etc.), recorda a degenerescência progressiva da primeira humanidade, a qual justifica o dilúvio, e conclui com um último episódio, a perda da unidade linguística e a dispersão da segunda humanidade, pós-diluviana, consequência de um novo projeto. Explora a origem do mundo e, ao mesmo tempo, a atual condição humana.

O décimo segundo capítulo do Gênese introduz o leitor em um mundo religioso novo. Javé diz a Abraão (o nome Javé somente foi revelado por Moisés, portanto posterior a Abraão): “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, vai para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma benção! Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Por ti serão benditos todos os clãs da Terra” (Gênese 12, 1-3).

Abraão é escolhido de Deus para se tornar o ancestral do povo de Israel e tomar posse de Canaã. Assim começa a história da religião de Israel, relatada entre os capítulos 46 e 50 do Gênese, no Êxodo e no livro dos Números.

Trata-se de uma série de acontecimentos, em sua maioria provocados diretamente por Deus. Os mais importantes são a instalação de Jacó e seus filhos no Egito; a perseguição desencadeada alguns séculos mais tarde, por um faraó que ordenou o extermínio dos primogênitos dos israelitas; as peripécias de Moisés depois de haver matado um soldado egípcio que moía de pancadas um de seus irmãos –  especialmente sua fuga no deserto de Mediã, a aparição da sarça de fogo (seu primeiro encontro com Javé), a missão, que lhe foi dada por Deus, de tirar seu povo do Egito e a revelação do nome do divino –; as dez pragas provocadas por Javé para forçar o consentimento do faraó; a partida dos israelitas e sua passagem do mar dos Caniços, cujas águas submergiram os carros e os soldados egípcios que os haviam perseguido; a manifestação de Deus sobre o monte Sinai, a aliança estabelecida por Javé com o seu povo, acompanhada de instruções relativas ao conteúdo da revelação e ao culto; finalmente, os 40 anos de marcha sobre o deserto, a morte de Moisés e a conquista de Canaã sob o comando de Josué.

Há um esforço dos estudiosos para dissociar os elementos históricos dessas narrativas dos mitos e folclores (milagres como as dez pragas ou a travessia do mar dos Caniços não podiam ser considerados acontecimentos históricos). Não se conseguiu recuperar a historicidade de certos acontecimentos de importância para a religião de Israel.

O Deus dos hebreus é um deus dos nômades, que não está ligado a um santuário, mas a um grupo de homens, a quem acompanha e protege. O javismo nasce num meio de pastores e se desenvolve no deserto.

Pensava-se que Moisés tivesse sido o principal escritor dos livros do Pentateuco, tendo o relato de sua morte sido escrito por Josué. Porém, com os avanços dos estudos a partir do século XVIII, observou-se que os livros tinham inúmeros estilos literários e que as tradições e as teologias eram bastante distintas. As tradições a que nos referimos são a sacerdotal, a deuteronômica, a javista (dá a Deus o nome de Iahweh – Javé, e que se originou provavelmente no tempo de Salomão, em torno de 950 a.C., em Jerusalém), a eloísta (dá a Deus o nome de Elohim  e nasceu por volta de 750 a.C., no reino do Norte, depois que o reino unido de Davi-Salomão se dividiu em dois; é muito marcada pela mensagem de profetas como Elias e Oseias), e outras. Os livros do Pentateuco foram iniciados em períodos diferentes, em que existiam múltiplas tradições.

Os escritos começaram no período monárquico (os reinos de Judá e de Jerusalém, cada um governado por dezenove reis, por 200 e 400 anos, respectivamente) e receberam uma versão final no período persa (século V), nos tempos de Esdras e Neemias (livros reconhecidos pela Bíblia judaica).

O Gênese, como já mencionado, é o livro cosmológico da Bíblia. Narra como tudo o que existe começou, ilustra como Deus escolheu Abraão e o povo judeu, sobre seu filho Isaque, Jacó, o filho de Isaque, e sobre os doze fundadores da tribo de Israel.

Êxodo conta sobre a escravização do povo judeu e a saída do Egito, onde viviam. Nesse livro são citadas as dez pragas enviadas ao Egito para que o povo fosse libertado. Após tantas adversidades, o faraó egípcio consentiu em libertar o povo judeu. O ápice dessa trajetória ocorre diante do Mar dos Caniços, quando Deus fala e ordena a Moisés tocar com o cajado no mar para que ele se abrisse e o povo passasse, que era perseguido pelo exército grego. Os judeus passaram a viver no deserto e nesse tempo surgem as leis da arca da Aliança.

Em 1600 a.C. os israelitas eram um pequeno grupo de nômades: Jacó, neto de Abraão, mais seus filhos, netos e as várias esposas de cada um. Na terra de Canaã viviam os jebuseus, gesuritas, jebedeus (tribos de cananeus, filisteus), cada um numa pequena cidade independente. A escravidão era a base da economia local e negociar escravos para fazerem o trabalho pesado permitia a manutenção de um exército de cidadãos do império. Então, os judeus que viveram por 400 anos no Egito não foram todos escravizados, somente alguns; não se trata do êxodo do povo inteiro, mas apenas de um grupo, aquele conduzido por Moisés. Outros grupos já tinham iniciado a conquista mais ou menos pacífica em Canaã.

O povo egípcio era urbano, vivia em cidades ao longo das margens do rio Nilo, como Mênfis, Tebas, Heliópolis. Do outro lado do mar, onde o rio desemboca, ficava a civilização Micênica, que daria origem à cultura grega.

Naquela época os israelitas cultuavam os deuses cananeus: El, Baal, Asherah. O Deus israelita, Javé, provavelmente foi importado de outra cultura e ganhou traços de El e de Baal. Embora o Antigo Testamento afirme ter havido um grande êxodo, ele foi de um grupo de escravos judeus.

O nome de Moisés, como os de outros membros de sua família, é egípcio. Contém o elemento msy, “nascido filho”, comparável a Amósis ou Ramsés (Ra-messés, “filho de Rá). Não está excluída a hipótese de Moisés ter tido conhecimento da reforma de Akhenaton (faraó egípcio, 1375-1350 a.C.), que substituía o culto de Amon pelo monoteísmo solar de Aton (Aton é proclamado o único deus). Tal como Javé, ele é o deus que cria tudo o que existe e a importância concedida pela reforma de Akhenaton à instrução é comparável ao papel da torah no javismo.

Enquanto apascentava os carneiros de Jetro, seu sogro e sacerdote de Madiã, Moisés chegou, pelo deserto, ao “monte de Deus”, o Herebe. Foi ali que ele viu “uma chamada de fogo que saía do meio de uma sarça” e ouviu alguém o chamar pelo nome. Deus se deu a conhecer como o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, O Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Êxodo 3, 6). Então Deus disse-lhe: “Eu sou aquele que é (‘ehyéh ‘ áser ‘ ehyéh). Eu sou me enviou até vós”.

A revelação está concentrada no decálogo (Êxodo 20, 3-17) e reflete o espírito do javismo primitivo. O primeiro artigo do decálogo, “Não terás outros deuses diante de mim!”, demonstra que a existência de outros deuses não é descartada. Pede-se, porém, a fidelidade absoluta, pois Javé é um Deus que tem ciúmes (Êxodo 20, 5). A luta contra os falsos deuses começa imediatamente após a saída do deserto, em Ball Peor (foi ali que as filhas dos moabitas convidaram os israelitas a participar dos sacrifícios aos seus deuses).

O sentido do segundo mandamento, “Não farás para ti imagem”, provavelmente implicava a proibição de representar Javé por um objeto cultual. Assim como não tinha nome, Javé não devia ter imagem. Deus consentia em ser visto, diretamente, por alguns privilegiados; pelos outros homens, por seus atos.

Javé não reflete, como a maioria das divindades, a situação humana: não tem uma família, mas tão somente uma corte celeste. Javé é só e único.

De acordo com o relato da Bíblia, três meses depois da saída do Egito, no deserto de Sinai, teve lugar a revelação de Javé. “Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Javé descera sobre ela no fogo; sua fumaça subiu como a fumaça de uma fornalha, e toda a montanha tremia violentamente. O som da trombeta aumentava pouco a pouco; Moisés falava e Deus lhe respondia no trovão” (Êxodo 19, 18-19). Javé apareceu então aos israelitas que permaneceram no sopé da montanha e com eles firmou uma aliança, ditando o Código da Aliança, que abre com o decálogo e compreende muitas prescrições relativas ao culto (Êxodo 20, 22 e 24-26).

Mais tarde, Moisés teve uma nova entrevista com Javé e recebeu “as duas tábuas do Testemunho, tábuas de pedras escritas pelo dedo de Deus”. (Êxodo 31, 18).

A revelação de que Moisés foi intermediário fez dele, ao mesmo tempo, um profeta extático e oracular e um “mágico”; o modelo dos sacerdotes levíticos e o chefe carismático por excelência, que conseguiu transformar um grupo de clãs em um núcleo de nação, o povo de Israel.

Números descreve a libertação do povo judeu da escravidão no Egito, por Moisés, a fuga, o caminho do povo perambulando pelo deserto, antes de conhecerem a terra prometida, Canaã.

Especialistas comentam que os textos são a ordem que Deus deu aos israelitas para conquistar a terra prometida, se necessário fosse, para chacinarem qualquer habitante daquele lugar, para então Canaã ser dada aos judeus. O nome Números refere-se à contagem dos homens acima de 20 anos que poderiam ir à guerra. O livro trata de censos e das ofertas de cada uma das tribos (grupos). Números descreve a murmuração e a rebeldia do povo judeu sobre a condição em que estavam vivendo.

A emigração levou 40 anos: 600 mil homens, sem contar mulheres e crianças, o que talvez fosse muito próximo do número de homens da população egípcia da época, que era menor do que 3 milhões de habitantes. Isso remete à ideia de que, na verdade, houve um pequeno grupo que fugiu da escravidão e foi para Israel, criando uma sociedade com base nas antigas tradições.

“Assim partiram os filhos de Israel de Ramessés para Sucote, cerca de seiscentos mil a pé, somente de homens, sem contar os meninos.” (Êxodo 12, 37).

Deuteronômio contém as últimas palavras de Moisés aos israelitas antes de entrarem na terra de Canaã, com Josué como líder. Deuteronômio significa “segunda lei” ou “repetição da lei”, e em seus sermões, Moisés repetiu ao povo judeu as leis e os mandamentos que faziam parte de seu pacto com o Deus, antes da travessia do rio Jordão. Moisés também exortou os israelitas a lembrarem-se de guardar seus convênios quando lhes ensinou as consequências tanto da obediência quanto da desobediência às leis e aos mandamentos divinos.

Ao chegarem a Canaã, os patriarcas são confrontados com o culto do deus El.

Entretanto, nada de preciso se sabe sobre o culto celebrado pelos israelitas durante os 40 anos passados no deserto. O Êxodo 26 e o 38, 8-18, descrevem minuciosamente o santuário do deserto, a “Tenda do Encontro”, que abriga a arca do Testemunho, ou a arca da Aliança, um cofre de madeira que contém, segundo a tradição tardia, as tábuas das leis (Deuteronômio 10, 1-15). Provavelmente havia tendas ou palanquins cultuais, nos quais eram carregados os ídolos de pedra. Também é provável que a tenda recobrisse a arca, que simbolizava a presença do invisível.

Levítico significa “com respeito aos levitas”, a descendência da tribo de Levi. Portanto foi um livro escrito pelos levitas, responsáveis por cuidarem do tabernáculo. O livro fala de santidade, sacrifícios, rituais de pureza, as obrigações sociais, e apresenta os detalhes de como o povo deveria adorar a Deus e como se relacionar uns com os outros. Está indicado que a linhagem de Arão é que cuidará do sacerdócio. Inicia-se o compromisso dos crentes com o dízimo, para que se sustentasse os sacerdotes e aqueles que cuidavam dos tabernáculos.

Os estudiosos acreditam que os cinco livros do Pentateuco foram escritos, a partir de diversas origens, com base em fontes orais conhecidas havia séculos e sua produção final foi cerca de 800 anos após a morte de Moisés, que teria vivido por volta de 1300 a.C. (portanto em 500 a.C.).

A explicação mais comum para o sofrimento humano é a de que Deus está punindo o homem por ter cometido (e cometer) o pecado. O sofrimento é uma punição pelo pecado. O sofrimento do povo judeu se dá: 1-Deus escolheu o povo de Israel como seu povo especial; 2-Abraão foi escolhido como o pai da nação; 3-na segunda geração de Abraão sua família foi obrigada a ir para o Egito para fugir da fome de Israel; 4-os egípcios escravizaram o povo de Israel; 5-Moisés é o responsável pelo resgate do povo judeu; 6-Deus conduziu o seu povo até o monte Sinai, onde deu a Moisés os Dez Mandamentos e o restante da lei judaica e fez o “pacto da paz”.

Depois dos livros dos Pentateucos, seguem os livros históricos: Josué, Juízes e Primeiro e Segundo Livros de Samuel, e Primeiro e Segundo Livros de Reis. Todos datam de 1000 a 400 a.C. Esses livros contém diversas tradições e diferentes estilos literários e é muito provável que tenham sido concluídos durante o cativeiro babilônico dos judeus (século VI a.C.), até os tempos de Esdras.

 

Livros históricos

O livro de Josué relata a entrada dos israelitas na terra prometida sob a liderança do profeta, sucessor de Moisés, e responsável por comandar a conquista de Canaã. O texto explica, ao longo de vinte e quatro capítulos, a história de como os israelitas conquistaram a terra prometida. Fala sobre as batalhas do povo judeu (a batalha de Jericó, por exemplo) e sobre a divisão das terras entre as doze tribos israelitas.

Juízes narra a história de Israel desde a conquista de Canaã até o começo da monarquia. Canaã ficou sem rei e havia muitas pequenas tribos, com culturas diversas e influenciadas por estrangeiros. Nesse tempo surgiram os líderes conhecidos como “Juízes” (Otniel, Eúde, Sangar, Gideão, Jefté, Ibsã, Elom, Abdom, Samuel). Entretanto, após a morte de Josué, as doze tribos de Israel ficaram sem lideranças que as orientassem na defesa contra os povos estrangeiros, os filis­teus, moabitas, cananeus e amonitas (as únicas autoridades eram os anciãos de cada uma das tribos). A conquista total da terra só ocorreu no tempo do rei Davi.

Denomina-se época dos juízes o período que se estende desde 1.200 a.C., quando o grupo de Moisés chegou a Canaã guiado por Josué, até 1.020 a.C., quando Saul foi proclamado rei. Os juízes eram chefes militares, conselheiros e magistrados. Durante esse período, aceitaram o javismo, sobretudo depois de certas vitórias, pois Javé interveio diretamente na batalha. Ele certificou a Josué: “Não temas: eu os entregarei nas tuas mãos!” (Josué 10, 8).

O javismo modificou-se. A partir de então, o culto era praticado nos santuários e sítios sagrados. Após a associação Javé-El, os santuários pré-javistas da religião cananeia, foram dedicados a Javé. Também se fazia confusão entre Javé e Baal, provavelmente venerado ao lado de Javé – “Baal combate” (Juízes 6,32).

O sistema sacrificatório cananeu foi em grande parte adotado. A forma mais simples de sacrifício consistia na oferenda de diferentes dádivas ou em libações de óleo ou água. As oferendas eram consideradas um alimento para a divindade (Juízes 6, 19). Foi nesse momento que os israelitas começaram a praticar o holocausto (‘olah), por eles interpretado como uma oblação oferecida a Javé. Eles tomaram emprestadas muitas práticas cananeias relacionadas com a agricultura e até certos ritos orgiásticos. O processo intensificou-se sob a monarquia, quando se ouvia falar em prostituição sagrada de ambos os sexos.

O Primeiro Livro de Samuel discorre sobre o ministério do profeta e o último dos juízes, que restaurou a lei e a ordem religiosa. Acredita-se que o livro reúne diferentes fontes documentárias independentes, porém convergentes. O texto trata da transição de uma forma de governo, teocrática, para outra, monárquica. Após passar muitos anos como uma confederação tribal governada de modo esporádico e irregular pelos juízes, os israelitas queriam ter um rei, como tinham as outras nações.

Saul foi o primeiro rei do povo judeu em Canaã. Samuel advertiu aos israelitas sobre o que lhes adviria se decidissem ser governados por um rei. Depois de ter sido ungido por Samuel, Saul recebeu o “espírito de Javé”, pois o rei era o ungido de Deus (Samuel 24, 7-11; 26, 9-11 e 16, 23); ele tornava-se de certa forma seu filho, legitimado por uma declaração especial. Javé concede-lhe o domínio universal (Salmo 72, 8) e o rei senta-se ao seu trono ao lado de Deus (Salmo 110, 1 e 5; I Crônicas 28, 5 e 29, 23). O soberano é o representante de Javé, pertence à esfera divina, porém é Javé que detém o papel central e não o rei.

Um grupo inteiro de salmos, os “salmos da entronização”, exalta Javé como rei. Ele é “um rei grande sobre todos os deuses” (Salmos 95, 3); “Javé é rei, os povos estremecem! … O rei que ama a justiça és tu; tu estabeleceste as normas da probidade, da justiça e do direito.” (Salmos 99, 1-5).

Samuel, quando envelheceu, constituiu seus filhos juízes em Israel. Estes, porém, não seguiram o seu exemplo e os anciãos vieram ter com ele e lhe disseram: “Constitui sobre nós um rei, o qual exerça a justiça entre nós, como acontece com todas as nações.” (Samuel 8, 1-5).

Acredita-se que esse livro formava originalmente uma só obra com Segundo Livro de Samuel, Primeiro e Segundo Livros de Reis. O livro inclui o reinado de Saul, as guerras dos filisteus, e de outros povos vizinhos, contra Israel e a grande façanha de Davi (mais tarde, rei de Israel), ao derrotar o gigante Golias.

O Segundo Livro de Samuel começa narrando a ascensão de Davi e seu governo como rei de Judá e depois de Israel (é um livro que conta as conquistas de Davi). Relata os adultérios e estupros cometidos por Davi e de seus filhos, Amnom e Absalão, e mostra a tristeza e as tragédias que acompanharam a violação dos mandamentos. Também nesse livro é mencionado o transporte da arca da Aliança, que se torna o centro do poder político na região.

A realeza foi interpretada como uma nova aliança entre Javé e a dinastia de Davi.

Os dois livros de Reis mostram que cada rei é julgado de acordo com a sua fidelidade a Deus. O Primeiro Livro de Reis traz informações sobre um contexto que começou no livro de Samuel, que é a história dos reis israelitas. Saul foi o primeiro rei de Israel e Davi, o segundo. Após a morte da Davi, seu filho Salomão herda o trono e um dos destaques de seu reinado foi construir um grande templo, conhecido atualmente como “Templo de Salomão”. O livro, portanto, menciona a ascensão de Salomão e conta sobre cento e vinte anos do povo hebreu e a divisão em dois reinos, Judá e Israel.

Salomão construiu o templo em Jerusalém próximo ao palácio real: ele associa, assim, o culto do santuário à monarquia hereditária. O templo passa a ser a residência de Javé entre os israelitas. A arca da Aliança, que então acompanhava os exércitos, é instalada no “Santo dos Santos”. O templo, construído emprestando formas cananeias, torna-se o santuário nacional e o culto real identifica-se com a religião do Estado de Israel. Os rituais são de expiação para a coletividade e preces públicas em favor do rei, de sua glória e pelo exercício de sua justiça que assegura “a paz do povo” e a prosperidade (Salmos 20 e 72).

Com a morte de Salomão, o reino dividiu-se em dois: o do Norte ou de Israel, e o do Sul ou de Judá. Como a arca ficara em Jerusalém e as tribos do norte não tinham acesso ao santuário comum, Jeroboão, o primeiro rei de Israel, instalou dois santuários, em Betel e em Dã, onde Javé era adorado na forma de dois bezerros de ouro (1 Reis 12, 28-29). A religião cananeia proibia as imagens e essa inovação agravou o desentendimento entre os reinos do norte e do sul.

O Segundo Livro de Reis relata a história dos dois reinos, do Norte e do Sul. O primeiro com a queda de Samaria e o segundo com a conquista de Jerusalém pelo rei babilônico Nabucodonosor. A queda dos reinos de Israel acontece porque seus reis haviam sido infiéis com os princípios de Deus, segundo os relatos.

Os outros livros, Salmos e Provérbios, foram escritos a partir do ano 1000 a.C. Esses textos, segundo alguns historiadores, foram adaptados e remodelados para atenderem a interesses do povo israelita (tenho a opinião de que a maioria dos textos bíblicos, assim como de outras religiões universais que conhecemos hoje, foram adaptados buscando interesses de grupos religiosos, étnicos, sociais, econômicos e diversos outros, ao longo do tempo – no caso específico da Bíblia, após tê-la lido, não me furto desse convencimento).

Os textos canônicos de Salmos assemelham-se com os poemas do ugarítico, do século II. Podem ser datados dos períodos monástico, persa (período no qual os gregos da antiguidade designavam o território governado pelos reis da dinastia fundada pelo rei Aquemênes da Pérsia,  conquistas territoriais empreendidas por Dario I e Xerxes I) e helenístico (referente ao período da história da Grécia e de parte do Oriente Médio compreendido entre a morte de Alexandre, o Grande, em 323 a.C. e a anexação da península grega e ilhas por Roma em 146-30 a.C.).

Se compararmos os Salmos com os manuscritos encontrados em Uran (os Salmos extra canônicos), o Saltério e o livro Provérbios tiveram sua forma final no século I.

Javé é o Deus vivo; ele se distingue tanto dos ídolos que não falam e que devem ser carregados, porque podem caminhar (Jeremias 10, 5), quanto dos homens, “semelhantes à erva que cresce” (Salmo 10, 5). O homem também é Javé, uma vez que Deus insuflou o “sopro” ou “espírito” (rûah); mas sua existência é de curta duração. Deus é senhor do mundo porque foi seu criador. Reside no Céu e manifesta sua presença ou sua vontade nos fenômenos como relâmpago, trovão, chuva.

Enquanto Deus é espírito, o homem é carne. Essa oposição frisa a precariedade e o caráter efêmero da existência humana, que contrasta com a onipotência e a eternidade de Deus (o homem é uma criatura de Deus).

A mortalidade do homem é consequência do desejo de Adão de tornar-se semelhante a Deus; ela reduz o homem a uma pós-existência no sheol, região escura nas profundezas da Terra. Já que a morte é, por excelência, a negação da sua obra, Javé não reina sobre o sheol, e o morto está privado de relacionar-se com Deus. No entanto, Javé é mais poderoso que a morte: se o desejasse, poderia arrancar o homem da sua sepultura. Alguns salmos aludem a esse prodígio: “Do sheol tiraste a minha alma; tu me reavivaste dentre os que baixam à cova.”.

O homem se distingue das outras criações, pois foi formado à imagem de Deus e reina sobre a natureza. A sua mortalidade é consequência do pecado original. O homem foi tirado do pó e ao pó retornará (Gênese 3, 19).

Salmos é um livro de orações e hinos da Bíblia. Ele contém cânticos de adoração que foram compostos por um longo período da história de Israel.

Provérbios é poético e sapiencial e levanta questões sobre valores, comportamento moral e o significado da vida humana. O tema recorrente é que “o temor a Deus – a submissão à vontade de Deus – é o princípio da sabedoria”. A sabedoria é elogiada e deve ser o objetivo da vida religiosa, segundo o livro, que é composto por “ditos” e poesias de tipos variados, entre elas “instruções”.

O livro é uma coletânea de trechos literários em seis unidades discretas. A primeira, capítulos 1 a 9, foi provavelmente a última a ser composta, já nos períodos persa e helenístico, que se  caracterizou pela difusão da civilização e cultura gregas (550-146 a.C.). Essa seção é similar a outros textos cuneiformes mais antigos. A segunda, do capítulo 10 a 22, 16, tem o título de “Provérbios de Salomão”. A terceira, cujo título é “Inclina o teu ouvido e ouve as palavras do sábio” (Provérbios 22, 17), é uma versão hebraica de uma obra egípcia do segundo milênio a.C., a Instrução de Amenemope (é uma obra literária composta no Antigo Egito, muito provavelmente durante o período do reinado Ramsés II; contém trinta capítulos de conselhos para uma vida bem sucedida, ostensivamente escrito pelo escriba Amenemope, filho de Kanakht, como um legado para seu filho). É possível que ela tenha chegado às mãos do autor (ou autores) através de uma tradução aramaica. Em 24, 23 começa uma nova seção, de outra fonte, com o título de “Estes também são provérbios dos sábios”. A seção seguinte começa em 25, 1, e tem um título que indica que os provérbios seguintes foram transcritos “pelos homens de Ezequias”, o que indica que foram colecionados durante o reinado de Ezequias, no final do século VIII a.C.. Os capítulos 30 e 31,  “palavras de Agur”, as “palavras do rei Lemuel”, são apêndices, bem diferentes em estilo e na ênfase, dos capítulos anteriores.

O livro Rute não tem registro de autor, mas é tradicionalmente atribuído ao profeta Samuel. Um considerável número de estudiosos data o livro de Rute no período persa (séculos VI a IV a.C.). Acredita-se que genealogia que conclui o livro seja uma adição pós-exílio de um autor sacerdotal.

Na época dos juízes, o livro descreve um período de fome, quando uma família israelita de Belém, Elimeleque, sua mulher Noemi, e seus dois filhos, Malom e Quiliom, emigraram para Moabe (Moabe ficava ao longo da margem oriental do Mar Morto, e os moabitas foram um povo que estava frequentemente em conflito com os seus vizinhos israelitas). Elimeleque morreu, e seus filhos se casaram com esposas moabitas: Malom casou-se com Rute e Quiliom, com Orfa.

Cerca de dez anos depois, os dois filhos de Noemi morreram em Moabe e ela decidiu retornar para Belém. Antes de partir, ela pediu que suas noras retornassem para suas próprias mães para que pudessem se casar novamente. Orfa se foi, mas Rute se recusou, seguindo com Noemi. Para se sustentarem, Rute foi trabalhar nos campos que pertenciam a Boaz, um parente próximo da família do falecido marido de Noemi, e estava, portanto, obrigado pela lei do levirato (Yibbum) a se casar com Rute, que era a viúva de Malom, para receber a herança de sua família – a lei do levirato, segundo Deuteronômio 25, 5-10, obrigava o cunhado a casar-se com a cunhada, no caso em que ela ficasse viúva sem ter tido um filho homem.

Boaz foi para o portão se encontrar com o outro parente, que, diante dos anciãos da cidade, renunciou a seu direito de redimir a herança de Malom, o que permitiu que Boaz se casasse com Rute. Eles transferiram a propriedade e a reconquistaram.

Boaz e Rute se casam e têm um filho. O nome da criança era Obede, pai de Jessé, avô de Davi. O livro termina com um apêndice que lista a genealogia de Davi desde Perez, filho de Judá e de Tamar, passando por Obede até Davi.

A narrativa do livro mostra como Rute se tornou uma ancestral de Davi por meio do casamento de cunhado com Boaz, em favor de sua sogra, Noemi. O apreço, a lealdade e a confiança em Javé que Boaz, Naomi e Rute demonstraram permeiam o relato.

Excetuando-se a lista genealógica, os eventos relatados no livro de Rute abrangem um período de cerca de 11 anos no tempo dos juízes, embora não se declare exatamente quando ocorreram.

A cronologia apresentada em Rute 4, 18-22 foi confirmada pela genealogia de Jesus Cristo, apresentada em Mateus 1, que lista Boaz, Rute e Obede (filho do casal) na linhagem de ascendentes. Também merece destaque o fato de a protagonista do livro ser uma estrangeira, mas deve-se lembrar que Rute era etnicamente vizinha do povo de Israel, e, portanto, da mesma família semítica antiga, o que pode ser considerado um protonacionalismo regionalista antigo entre as duas margens longitudinais do Jordão.

Primeiro e Segundo das Crônicas

Os livros das Crônicas são obra do judaísmo pós-exílio, quando o povo vivia sob a direção de seus sacerdotes. O templo, já reconstruído, e as cerimônias eram o centro da vida desse povo.

O autor das Crônicas pertence ao grupo dos sacerdotes e levitas (a tribo dos levitas foi escolhida para cuidar do templo) de Jerusalém. Escreve depois da época de Esdras (ele liderou o segundo grupo de retorno de israelitas que retornaram da Babilônia em 457 a.C. Descendente de Arão, o primeiro sumo sacerdote de Israel, Esdras era escriba e copista da lei de Moisés) e Neemias, pois ele combina a seu modo as fontes que se referem a eles. São datados por volta de 300 a.C. O clero desempenha papel importante na obra: não apenas os sacerdotes e os levitas, mas também as classes inferiores do clero, tais como, os porteiros do templo e os cantores do culto.

A separação em dois volumes aconteceu depois de Cristo. O primeiro livro das Crônicas faz como que um apanhado da história de Israel desde suas origens até o final do reinado de Davi, por volta de 970 a.C. É como uma releitura, uma recapitulação desse período sob a ótica dos sacerdotes e levitas ligados ao templo de Jerusalém. O Cronista faz uma revisão da obra deuteronomista, tentando suavizar a crítica a Davi, apresentando-o livre de fraquezas e pecados, um rei ideal.

A divisão do primeiro livro das Crônicas é bastante clara. Pode ser dividido em dois grandes blocos: primeiro: listas genealógicas (1Cr, 1-10); segundo: história de Davi (1Cr, 11-29).

Listas genealógicas (1Cr, 1-10): Nesses capítulos, temos uma série de genealogias, as quais se detêm mais na tribo de Judá e na descendência de Davi, nos levitas e nos habitantes de Jerusalém. O Cronista resume a história de Israel através de genealogias, com a intenção de situar a casa de Davi na história do povo de Deus. É uma lista enorme de nomes de pessoas e das várias tribos. Essas listas são maçantes e pouco atraentes, era o jeito de contar a história dos antepassados.

As listas de gerações procuram mostrar para a comunidade judaica do período persa que a tribo de Judá e a casa de Davi são as legítimas herdeiras da bênção de Abraão. As genealogias do Gênesis (1-12) chegam até Abraão, as do Cronista vão até Saul e preparam a história de Davi, principal personagem do Cronista. O autor, portanto, começa com Adão (1Cr, 1,1), passando pelas várias tribos, e culmina com Davi (1Cr, 10,14), filho de Jessé, da tribo de Judá.

História de Davi (1Cr, 11-29): O autor das Crônicas não dá muita importância ao rei Saul. Sua preocupação é com o rei Davi, destacando os principais fatos positivos do seu reinado, deixando de lado os aspectos mais negativos, os episódios que comprometem sua imagem. Depois de sua eleição em Hebron (1Cr 11,1-2), Davi conquista Jerusalém, transformando-a na “Cidade de Davi”, transfere a arca da aliança para Jerusalém e vai consolidando seu reinado.

Morando em Jerusalém, Davi construiu uma tenda para a arca, centralizando o culto em sua nova capital, local de festas e de romarias, fonte de bênçãos para todo o povo, planeja construir uma “casa para a arca de Javé” (templo). Segundo o autor, a bênção de Javé sobre Davi manifesta-se nas vitórias do rei sobre os inimigos do povo.

O segundo livro das Crônicas narra acontecimentos de um período da história dos judeus, desde o reinado de Salomão (por volta de 970 a.C.), até a destruição do Reino de Judá por Nabucodonosor II, imperador da Babilônia (586 a.C.).

Embora seja incerta a sua autoria, a tradição judaica afirma que o livro teria sido escrito por Esdras, por volta de 430 a.C., no período após o exílio babilônico, resgatando, desse modo, a história do seu povo. Outros sustentam que o autor das Crônicas é um levita de Jerusalém, que escreveu numa época posterior a Esdras e Neemias.

Os nove primeiros capítulos deste segundo livro contam a história do reinado de Salomão, contendo um detalhado registro da construção do templo, cumprindo a promessa feita a seu pai, Davi.

Os capítulos seguintes relatam os acontecimentos a partir do cisma ocorrido após a morte de Salomão, em torno de 930 a.C., no reinado de Roboão (o primeiro rei de Judá), e prossegue com a história dos outros reis que governaram Judá.

Os principais pontos de destaque do livro são os reinados de Asa (neto de Roboão, reinou Judá por 41 anos) e de Josafá (o segundo rei de Judá, reinou por 25 anos), a morte de Acabe (sétimo rei de Israel), o reinado de Uzias (décimo rei de Judá), a destruição do Reino de Israel pelos assírios, o reinado de Ezequias (o décimo terceiro rei de Judá, reinou por 29 anos), e a resistência de Jerusalém ao cerco de Senaqueribe (em aproximadamente 701 a.C., Senaqueribe, rei da Assíria, atacou as cidades do Reino de Judá em uma campanha de subjugação; o rei da Assíria sitiou Jerusalém, mas não conseguiu capturá-la), a idolatria de Manassés (reinou em Judá por 55 anos), o reinado de Josias (o décimo sexto rei de Judá), o achado do livro da lei mosaica (a lei de Moisés, um código de leis formado por ordens e proibições), e a derrota de Judá pelos babilônicos.

O livro de Esdras, um escriba que liderou um avivamento entre os judeus que voltaram do exílio na Babilônia, é o décimo quinto livro do Antigo Testamento, sendo tratado como um dos livros históricos. O tema é o retorno a Sião depois do cativeiro na Babilônia.

Esdras foi escrito para explicar que o Deus de Israel inspirou um rei da Pérsia para nomear um líder da comunidade judaica para realizar uma missão. Três líderes sucessivos realizaram três missões: a primeira foi reconstruir o Templo; a segunda, purificar a comunidade judaica; e a terceira, selar a cidade sagrada de Jerusalém, reconstruindo a sua muralha (esta última missão, liderada por Neemias, não está no livro de Esdras). A primeira versão do livro provavelmente apareceu por volta de 399 a.C.

O livro está dividido em dez capítulos. Os seis primeiros, cobrindo o período que vai de Ciro, O Grande, até a dedicação do Segundo Templo, está escrito em terceira pessoa. Os quatro capítulos seguintes, que tratam da missão de purificação de Esdras, estão escritos principalmente na primeira pessoa.

Capítulos 1 a 6: Ciro (rei e fundador do Império Aquemênida, que reinou entre 559 e 530 a.C.), inspirado por Deus, devolve os vasilhames do Templo a Zorobabel (Sheshbazzar), um príncipe de Judá, e ordena que os israelitas retornem a Jerusalém com ele e reconstruam o Templo. Aproximadamente 42.360 exilados, incluindo servos, servas, cantores e cantoras, partem da Babilônia para Jerusalém e Judá, sob a liderança de Zorobabel e Josué, o sumo-sacerdote, que constroem um altar e celebram a Festa dos Tabernáculos. No segundo ano, são lançadas as fundações do Templo e a cerimônia de dedicação ocorre em meio a grandes festejos. Os inimigos de Judá e Benjamim oferecem ajuda com a reconstrução, mas são afastados. Os oficiais da Samaria escrevem ao rei Artaxerxes, alertando-o que Jerusalém está sendo reconstruída; o rei ordena que as obras sejam paralisadas. “A obra da casa de Deus, que está em Jerusalém, foi interrompida até o segundo ano do reinado de Dario, rei da Pérsia.” (Esdras 4, 24).

Exortados pelos profetas Ageu e Zacarias, Zorobabel e Josué recomeçam a construção do Templo. Tatenai, sátrapa (nome dado aos governadores das províncias, chamadas satrapias, nos antigos impérios Aquemênida e Sassânida, da Pérsia) da Judeia e da Samaria, escreve a Dario alertando-o que Jerusalém está sendo reconstruída e recomendando que se procurem nos arquivos o decreto de Ciro, o Grande. Dario encontra o decreto e ordena que Tatenai não atrapalhe os judeus em seu trabalho. Além disso, isenta-os do pagamento de tributos e envia-lhes o necessário para a realização das oferendas. A construção do Templo termina e os israelitas se reúnem para celebrar.

Capítulos 7 a 10: o rei Artaxerxes (um rei aquemênida) é inspirado por Deus a encomendar de Esdras “a indagares a respeito de Judá e de Jerusalém, segundo a lei do teu Deus, a qual está na tua mão” (Esdras 7, 14), e a nomear “magistrados e juízes, que julguem todo o povo que está além do Rio, isto é, todos os que conhecem as leis do teu Deus; e ensinai a quem não as conhece.” (Esdras 7, 25). Ele envia a Esdras ouro e ordena que todos os oficiais persas o ajudem.

Esdras reúne um grande número dos judeus que retornaram, além de ouro, prata e vasilhames preciosos para o Templo, e acampa ao lado de um canal fora de Babilônia. Lá ele descobre que não há levitas e envia mensageiros para reunir alguns. Os exilados então voltam para Jerusalém, onde distribuem o ouro e a prata, e oferecem sacrifícios a Deus.

O escriba é informado de que alguns dos judeus que já estavam em Jerusalém se casaram com mulheres não judias. Esdras fica chocado com essa mostra de pecado e pergunta a Deus: “Jeová, Deus de Israel, tu és justo, pois somos deixados um resto que escapou, como hoje se vê. Eis que estamos diante de ti em nossa culpa, pois ninguém por causa disto se pode ter por inocente na tua presença.” (Esdras 9, 15). Apesar da oposição de alguns, os israelitas se reúnem e expulsam as esposas estrangeiras e os filhos destes relacionamentos.

O livro de Neemias é tido como uma continuação do Livro de Esdras, e por vezes chamado até mesmo de “o segundo livro de Esdras”. Neemias foi o último dos governadores enviados pela corte persa à Judeia. Logo depois a província foi anexada à satrapia de Cele-Síria e passou a ser governado por um sumo sacerdote indicado pelos sírios.

Existem partes do livro escritas em primeira pessoa, e em outras em que Neemias é referido pela terceira pessoa.

Alguns estudiosos acreditam que essas partes teriam sido escritas por Esdras, embora não exista qualquer evidência, enquanto outros acreditam que o arranjo e revisão final do texto teriam ocorrido num período bem posterior.

Se Neemias de fato foi o autor, a data em que o livro foi escrito teria sido por volta de 431-430 a.C., quando ele retornou pela segunda vez a Jerusalém, depois de sua ida à Pérsia.

O livro tem quatro partes:

Um relato da reconstrução das muralhas de Jerusalém e o registro do que Neemias encontrou ao retornar da Babilônia. Entre os detalhes estão a descrição de como Neemias se tornou governador de Judá, as diversas formas de oposição que sofreu, de Sambalá (governador da Samaria, que por volta da segunda metade do século V a.C. foi um dos principais opositores das reformas, e da reconstrução das muralhas de Jerusalém), e descreve seu retorno anterior, sob Zerubabel.

O livro de Ester, cujo autor é desconhecido, possui 10 capítulos. Deduz-se que se trata de um judeu persa, que o escreveu entre os séculos IV e I a.C. Conta como Ester, uma jovem judia que estava entre os deportados, tornou-se imperatriz da Pérsia, ao se casar com o imperador Assuero (identificado como Xerxes I).

O livro complementa os relatos de Esdras e de Neemias, contando o que aconteceu com o exilado povo de Deus na Pérsia.

O objetivo do livro é justificar a observância da festa do Purim (a festa comemora a salvação do povo judeu na antiga Pérsia da trama de Haman, para destruir e matar todos os judeus, jovens e velhos, crianças e mulheres, num único dia. Todos os judeus eram seus súditos do Império Persa).  Esse livro conta a história de como, pela providência, o povo foi salvo dos intentos destrutivos dos seus inimigos.

A edição Pastoral da Bíblia sustenta que não se trata de uma narrativa histórica, mas um conto que analisa a situação da comunidade judaica espalhada entre as nações estrangeiras.

O livro reflete um contexto histórico em que era necessário criar condições de sobrevivência e espaços no sistema vigente, já que as circunstâncias históricas não permitiam transformações mais profundas.

Ester nos ajuda a pensar numa política que une transformações locais e nacionalistas a uma política ampla, na qual a luta pela justiça ganhe espaços e os oprimidos da terra recuperem a esperança de viver. É assim que se torna possível, pouco a pouco, uma sociedade alternativa, na qual reinem a justiça, a liberdade e a partilha.

Os comentários sobre o livro de estão no título O sofrimento bíblico de Jó.

Salmos, ou música, em grego, constitui-se por 150 cânticos e poemas proféticos. Os versos foram utilizados pelo antigo Israel como hinário no Templo de Jerusalém, e, hoje o são como orações ou louvores, tanto no judaísmo quanto no cristianismo e no islamismo (o Corão, no capítulo 17, verso 82, refere-se aos salmos como “um bálsamo”).

A autoria da maioria dos salmos é atribuída ao rei Davi, a Asafe (um levita que liderava os músicos no templo), aos filhos de Corá (eram uma família levita do clã dos coatitas, da casa de Coate, através de Isar) e ao rei Salomão. Outros são de origem desconhecida.

O período em que foram compostos varia muito, desde 1440 a.C., quando houve o êxodo dos israelitas do Egito, até o cativeiro babilônico, e por quase um milênio desde então.

A poesia hebraica era estreitamente associada à música. Assim, embora não seja de se excluir para os salmos a possível recitação em forma de leitura, eram cânticos de louvor, ou ainda, oração cantada e acompanhada com instrumentos musicais.

O ponto de partida dos Salmos é o Deus libertador que ouve o clamor do povo e se torna presente, dando eficácia à sua luta pela liberdade e vida (Êxodo 3, 7-8). Por isso, os salmos são as orações que manifestam a fé que os pobres e oprimidos têm no Deus aliado.

Vários salmos são considerados pelos teólogos como proféticos, pois referem-se à vinda do Cristo e, por isso, existem muitas citações de versos dos salmistas no Novo Testamento, com o propósito de provar o cumprimento das profecias na pessoa de Jesus. No catolicismo os Salmos são também fonte teológica para algumas devoções, como é o caso da devoção a Maria.

Sob outro ponto de vista, de cunho não teológico, pode-se considerar os salmos como inseridos num conjunto bíblico de asserções proféticas, que expressam mais o desejo de salvação do humano diante da precariedade, incerteza e incompreensibilidade da vida e do mundo, do que propriamente predições exatas satisfatoriamente justificadas.

O livro dos Salmos chegou até nós nas versões grega e hebraica. A versão grega apresenta, na maioria dos salmos, um versículo de introdução, em que são atribuídas autorias e apontados instrumentos que deveriam ser utilizados ao se cantar os textos. Esse versículo faz com que a versão hebraica tenha, nesses casos, um versículo a menos, uma vez que essas informações não são consideradas inspiradas por tal versão.

O livro dos Provérbios é um dos livros poéticos e sapienciais do Antigo Testamento.

O livro levanta questões sobre valores, comportamento moral, o significado da vida humana e uma conduta direita. O tema recorrente é que “o temor a Deus, a submissão à Sua vontade, é o princípio da sabedoria”. A sabedoria é elogiada por seu papel na criação; Deus a manifestou antes de tudo e, através dela, ordenou o caos; e como os homens devem sua vida e prosperidade à conformidade com a ordem da criação, todos devem buscar a sabedoria.

Quase metade do livro é composta por “ditos”, e a outra é composta de longas seções poéticas de tipos variados. Entre elas, “instruções” formuladas como conselhos, e “ditos dos sábios”.

A primeira seção (capítulos 1 a 9) é um convite inicial aos jovens para que tomem o caminho da sabedoria, dez “instruções” e cinco poemas sobre a “sabedoria” personificada numa mulher. Do capítulo 10 até 22, 16, com 375 ditos, está dividido em duas partes. A primeira contrasta o justo e o mau, e a segunda apresenta os discursos do sábio e do tolo. Os capítulos 25 a 29 contrastam o justo e o mau, com um tópico sobre o rico e o pobre. Provérbios 30, 1-4, introduzem a criação, o poder de Deus e a ignorância dos homens.

Eclesiastes é um dos livros poéticos e sapienciais do Antigo Testamento da Bíblia cristã. O título “Eclesiastes” é uma transliteração da tradução grega do termo hebraico Kohelet, que significa “aquele que reúne”, mas que é tradicionalmente traduzido como “professor” ou “pregador” nas traduções da Bíblia em português, e é o pseudônimo utilizado pelo autor do livro.

O livro data do período entre 450 e 180 a.C. e é da tradição de autobiografias míticas do Oriente Médio, na qual um personagem, descrevendo a si próprio como um rei, relata suas experiências e tira lições delas, geralmente autocríticas. O autor, que se apresenta como “filho de Davi”, rei em Jerusalém, ou seja, Salomão, discute o sentido da vida e a melhor forma de viver. Ele proclama que todas as ações de um homem são inerentemente hevel, um termo que significa “vãs” ou “fúteis”, pois tanto os sábios quanto os tolos terminam na morte. Eclesiastes claramente endossa a sabedoria como meio para uma vida terrena bem vivida, pois, apesar dessa falta de importância dos atos, o ser humano deve aproveitar os prazeres simples da vida diária, como comer, beber e se orgulhar de seu trabalho, pois são presentes de Deus. O livro conclui com um mandamento: “Teme a Deus e observa os seus mandamentos, porque isto é o tudo do homem.” (Eclesiastes 12, 13).

Eclesiastes é apresentado como uma autobiografia de Kohelet. A história dele é contada por um narrador, que se refere a Kohelet na terceira pessoa e elogia sua sabedoria, mas lembra ao leitor que a sabedoria tem suas limitações e não deve ser a principal preocupação dos homens. Kohelet relata, planeja, faz, experimenta e pensa. Sua jornada de conhecimento é, no final, incompleta. O leitor é instado a não apenas ouvir a sabedoria de Kohelet, mas a observar sua jornada em direção à compreensão e à aceitação das frustrações e incertezas da vida: a jornada em si é importante.

A maior parte dos comentaristas modernos considera o epílogo do livro como uma adição de um escriba posterior. Alguns identificaram algumas afirmações específicas como adições posteriores, cujo objetivo era tornar o livro mais ortodoxo do ponto de vista religioso (por exemplo, as afirmações sobre a justiça de Deus e a necessidade da fé ou piedade).

O primeiro versículo do livro é um título de página: ele introduz o livro como sendo “Palavra do Pregador Kohelet, filho de Davi, rei de Jerusalém.” (Eclesiastes 1, 1). O poema introdutório, com dez versículos, são palavras do narrador e estabelecem o tom do que virá: a mensagem de Kohelet de que nada tem significado.

Depois da introdução seguem as palavras de Kohelet. Como rei, ele experimentou de tudo e fez de tudo, mas nada foi confiável no final. A morte nivela tudo. O único bem é aproveitar a vida no presente, pois a alegria é obra de Deus. Tudo está ordenado no tempo, e as pessoas estão sujeitas a ele, ao contrário de Deus, que é atemporal. O mundo está repleto de injustiças e apenas Deus pode julgar. As pessoas devem se divertir, mas não devem ser gananciosas; ninguém sabe o que é bom para a humanidade; retidão e sabedoria escapam aos homens. Kohelet reflete sobre os limites da capacidade humana: todos encaram a morte e a morte é melhor que a vida, mas devemos aproveitar a vida enquanto podemos. O mundo está repleto de riscos e ele oferece conselhos sobre como viver com risco. Deve-se aproveitar os prazeres sempre que possível, pois pode vir um tempo no qual ninguém poderá fazer isso. As palavras de Kohelet terminam com uma imagem da natureza persistindo enquanto a humanidade marcha para o túmulo.

O narrador retorna depois com o epílogo: as palavras do sábio são duras, mas elas são aplicadas como o pastor aplica incentivos e castigos ao seu rebanho. O final original do livro era provavelmente a frase “Este é o fim do discurso” em Eclesiastes 12, 13, mas o texto atual continua com uma reprimenda final: “Teme a Deus” (uma frase que Kohelet sempre usa) “e observa os seus mandamentos” (um termo que ele nunca usa) “…pois Deus trará a juízo todas as obras” (Eclesiastes 12, 13-14).

Na minha opinião, Eclesiastes é o livro é o mais sábio da Bíblia.

Cântico dos Cânticos, conhecido também como Cantares ou Cânticos de Salomão, é um dos livros poéticos e sapienciais do Antigo Testamento.

O livro dá “voz para dois amantes que se elogiam e se desejam com convites para o prazer mútuo”. A tradição judaica o interpreta como uma alegoria da relação entre Javé e Israel. A tradição cristã, além de apreciar o sentido literal, de uma canção romântica entre um homem e uma mulher, interpretou também o poema como uma alegoria de Cristo e sua “noiva”, a Igreja Cristã.

A introdução chama o poema de “Cântico dos cânticos”. O poema começa com a expressão do desejo da mulher por seu amante e sua autodescrição às “filhas de Jerusalém”. Segue um diálogo entre os amantes: a mulher pede um encontro ao homem; ele responde atiçando-a. Os dois competem nos elogios mútuos (“o meu amado é para mim como um ramalhete da hena”“a macieira entre as árvores do bosque”“qual uma açucena entre espinhos”). Essa seção termina com a mulher pedindo às filhas de Jerusalém que não despertem um amor como o dela antes de ele estar pronto.

A mulher relembra uma visita de seu amado na primavera e utiliza a imagem da vida de um pastor: seu amado “apascenta o seu rebanho entre as açucenas.” (Cantares 2, 16). Ela fala novamente com as filhas de Jerusalém, descrevendo sua fervente e, em última instância, vitoriosa busca pelo seu amado à noite pelas ruas da cidade. Quando ela o encontra, ela o toma para si e o leva para o quarto no qual sua mãe a concebeu. A mulher revela tratar-se de um sonho “de noite no meu leito” e novamente implora às filhas de Jerusalém que não despertem o amor até que esteja pronto.

A seção seguinte narra uma procissão de um casamento real. Salomão é mencionado pelo nome e as filhas de Jerusalém são convidadas a assistir ao espetáculo. Depois, o homem descreve sua amada: “seu cabelo é como um rebanho das cabras … seus dentes são como o rebanho de ovelhas recém-tosquiadas” (Cantares 4, 1-2). Ele se apressa em chamar sua amada afirmando estar encantado por sua beleza. O texto então torna-se um “poema de jardim”, no qual ele a descreve como um “jardim trancado” (Cantares 4, 12) – uma metáfora para a castidade. A mulher convida o homem a entrar no jardim e provar das frutas; ele aceita o convite e um terceiro diz: “Comei, amigos, Bebei, sim, embriagai-vos, caríssimos.” (Cantares 5, 1).

A mulher conta às filhas de Jerusalém um outro sonho. Ela estava em seu quarto quando seu amado bateu na porta. Ela demorou para abrir e, quando o fez, ele já havia partido. Ela procurou por ele nas ruas novamente, mas não conseguiu encontrá-lo e os vigias, que a ajudaram da primeira vez, desta vez, bateram nela. Ela pede que as filhas de Jerusalém a ajudem a encontrá-lo e descreve a beleza de seu amor. Finalmente ela permite que seu amado entre em seu jardim, em segurança, e tão comprometido com ela quanto ela por ele.

O homem descreve sua amada; a mulher descreve um encontro dos dois. O povo louva a beleza da mulher. O homem afirma sua intenção de provar os frutos do jardim da mulher e ela o convida para um passeio nos campos. Ela, mais uma vez, pede que as filhas de Jerusalém não despertem o amor até que esteja pronto.

A mulher compara o amor à morte e ao sheol: o amor é tão forte e ciumento quanto esses dois e não pode ser apaziguado por nenhuma força. Ela chama seu amante usando o mesmo linguajar já utilizado antes: “o veado ou como o filho da gazela sobre os montes de aromas” (Cantares 8, 14).

O Cântico dos Cânticos não dá nenhuma pista sobre a data, o local e em quais circunstâncias foi escrito. Cantares 1, 1 afirma que o autor é Salomão, mas mesmo se esse versículo puder ser entendido como uma declaração de autoria, ele não pode ser lido da mesma forma como se lê uma afirmação moderna do mesmo tipo.  

Isaías é um livro profético. Sua importância é refletida também no Novo Testamento, considerando-se que há mais de 400 referências diretas ao livro, feitas pelos evangelistas e apóstolos.

Em seus dias, Isaías viveu e narrou a tensão política e militar que o território de Israel experimentava, com eventos decorrentes principalmente de um panorama marcado por intensas e contínuas guerras.

O início do ministério profético de Isaías situa-se em 754 a.C., coincidindo com 2 datas históricas precisas: a morte do rei Uzias de Judá e a fundação de Roma.

Isaías, filho de Amoz (não Amós, o profeta vaqueiro), nasceu por volta de 765 a.C. e viveu na corte dos reis de Judá. Letrado, culto e politicamente privilegiado, pode ter feito parte da casta sacerdotal de Jerusalém.

Em 740 a.C., ano da morte do Rei Uzias, ele recebeu sua vocação profética e exerceu seu ministério por quarenta anos, numa época de crescente ameaça que a Assíria fazia pesar sobre os reinos de Israel e Judá.

Embora a teologia tradicional judaico-cristã defenda a existência de um único autor, respaldada por Eclesiastes 48, 24-25, existem evidências de que o livro foi obra de mais de um autor, merecendo destaque o início do capítulo 40, em que se verifica a descontinuidade entre o Primeiro e o Segundo Isaías, pois ocorre uma mudança abrupta do século VIII a.C., para o período do Exílio na Babilônia (século VI a.C.): a Assíria é substituída pela Babilônia.

Para alguns estudiosos, o Livro de Isaías é uma coletânea de profecias de épocas bem diferentes, cuja redação final deve ter acontecido por volta de 400 a.C., ou mesmo posteriormente. Segundo eles, trezentos anos depois da morte de Isaías ainda se atualizavam suas palavras, pois mesmo as profecias da época dele foram relidas na perspectiva pós-exílica. A afirmação crítica baseia-se na pressuposição naturalista de que seria impossível prever, com mais de 300 anos de antecedência, o nome do rei (Ciro) que destruiria Babilônia, conforme declarado no livro de Isaías.

O livro que traz o nome de Isaías pode ser dividido em três grandes partes: os capítulos 1 a 39 contêm a mensagem do profeta chamado Isaías, cuja preocupação central é a santidade de Deus, ou seja, só Deus é absoluto. Em meio a grandes mudanças políticas internacionais, Isaías condena a aliança com as grandes potências, mostrando que a nação só será salva se permanecer fiel a Deus e ao seu projeto, no qual a justiça é o valor supremo.

Isaías foi enfático contra a falsa religião. Na sua época, as pessoas frequentavam o Templo, mas para o profeta isso não bastava, pois encher o Templo com iniquidade e solenidade era um erro enorme, isso porque as pessoas que levavam ofertas para Jeová eram as mesmas que não se importavam em fazer o direito funcionar.

O profeta denunciou o comportamento dos ricos e latifundiários, dos que viviam em grandes festas custeadas pelo trabalho dos pobres, dos que exploravam o povo negando-lhe a justiça e dos que se faziam grandes e importantes vivendo em grandes banquetes.

Os capítulos 40 a 55 foram escritos, segundo estudiosos, por um profeta anônimo que iniciou a pregação após 550 a.C., no final da época do exílio na Babilônia, quando ocorriam as primeiras vitórias de Ciro II. Apresentam uma mensagem de esperança e consolação. O fim do exílio, de 587 a.C. a 538 a.C., é visto como um novo êxodo e, como no primeiro, Jeová será o condutor e a garantia dessa nova libertação. O povo de Deus convertido, mas oprimido, é chamado “Servo de Jeová”. O Novo Testamento atribui esse título a Jesus, o justo que sofreu e morreu para nos libertar. A comunidade, depois de convertida e libertada, se tornará missionária, luz para que as nações se voltem para o verdadeiro Deus.

O Segundo Isaías, pode ser subdividido em duas partes: capítulos 40 a 48, queda da Babilônia, libertação por Ciro II; e capítulos 49 a 55, restauração de Sião, insistência no universalismo da salvação.

Os capítulos 56 a 66 são atribuídos por estudiosos ao Terceiro Isaías. Apresentam uma coleção de profecias que procuram estimular a comunidade que veio do exílio na Babilônia e se reuniu em Jerusalém com os que estavam dispersos. Condena os abusos que começam de novo a aparecer e mostra qual é o verdadeiro jejum (Isaías 58, 1-12) necessário para que haja novos céus e nova terra.

O Terceiro Isaías não é de um autor único. Essa parte é uma coletânea diversificada: Isaías 63, 7 e 64, 11 parecem anteriormente ao fim do exílio na Babilônia, enquanto a profecia de 66, 1-4 é contemporânea da reconstrução do Templo, aproximadamente em 520 a.C.

O Livro de Jeremias é um livro profético. Filho do sacerdote Hilquias, da Tribo de Benjamim, nasceu entre 650 e 640 a.C. Jeremias foi sacerdote e previu, segundo a Bíblia, a invasão babilônica – Nabucodonosor II atacou Israel em 597 a.C. e novamente em 586 a.C., quando os caldeus destruíram Jerusalém e queimaram o Templo.

Acredita-se que o livro tenha começado a ser escrito por volta de 605 a.C., quando Jeremias foi preso, e começou a ditá-lo ao seu secretário Baruc. A obra só foi completada após a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor II.

No início do reinado de Josias, em 627 a.C., Jeremias proclamou um julgamento contra Israel e Judá por causa da sua infidelidade a Jeová e veneração a outros deuses, especialmente os deuses que garantiam a fertilidade da terra.

Com a decadência da Assíria (queda de Nínive em 612 a.C.), outros povos entram no cenário: citas, medos, babilônios e os egípcios, que tentam ressurgir após um período decadente. Com isso, a Palestina volta a ser palco de disputas políticas e militares. Josias morre em Megido, em 609 a.C. Jeocaz, que sucedera a Josias, é deposto, e Jeoaquim assume o trono de Judá. O povo detestava Jeoaquim e Jeremias o critica violentamente (Jer 22,13-19). É dessa época o discurso contra o Templo, que quase custou a vida do profeta.

A Babilônia surge como grande potência, sob o reinado de Nabucodonosor II. Jeremias adverte os israelitas da breve invasão dos babilônios. Por volta de 605 a.C., quando Nabucodonosor II venceu o Faraó Neco II e ameaçou Judá, o profeta foi ao pátio do Templo e anunciou a destruição de Jerusalém (Jer 19, 14-20).

Jeremias continuou denunciando o povo que havia se esquecido de Deus, por falsear o culto, pelas idolatrias e pelas injustiças sociais e aponta que os principais responsáveis são as pessoas importantes que detêm o poder em Jerusalém (rei, ministros, falsos profetas, sacerdotes).

Jeoaquim tinha morrido quando, em 598 a.C., o exército babilônio estava prestes a invadir Jerusalém. Seu filho e substituto Jeconias, também chamado Joaquim, não teve tempo para nada. Após três meses, Jerusalém era invadida e o profeta e parte da elite judaica foram levados para o exílio na Babilônia (597 a.C.). Jeremias afirmou que esse castigo era decorrente da ruptura da aliança com Deus.

O Livro das Lamentações é um conjunto de cinco poemas, provavelmente escritos após a queda e destruição de Jerusalém por Nabucodonosor II, nos anos 587-586 a.C.

No livro o au­tor se lamenta acerca da si­tua­ção miserável e humilhante em que se encontra o povo e as instituições de Israel, em decorrên­cia do mau proceder do povo e da sua

infidelidade à Aliança.

As “confissões” são diálogos com Jeová: lamentos e orações quando Jeremias mais sentiu o peso de sua missão. Obrigado a pregar a desgraça para o seu povo, a ser do contra, ameaçado, rejeitado, caluniado, desprezado, ele se lamenta, amaldiçoando até mesmo o dia em que nasceu.

É possível que tenham sido escritos em 605 a.C. como um desabafo das crises vividas pelo profeta desde o começo de sua atividade.

Os capítulos 1, 2 e 4 são cantos fúnebres, enquanto o capítulo 3 é uma lamentação individual, e o capítulo 5 é uma lamentação coletiva, também conhecida como Oração de Jeremias.

Ezequiel foi um sacerdote que foi chamado para profetizar, durante o exílio do povo judeu na Babilônia, tendo exercido sua atividade entre os anos 593 e 571 a.C.

Os propósitos das profecias de Ezequiel foram entregar a mensagem divina do juízo ao povo apóstata de Judá e de Jerusalém, e às sete nações estrangeiras ao seu redor, e conservar a fé do povo remanescente fiel a Deus no exílio.

O profeta também ressalta a responsabilidade pessoal de cada indivíduo diante de Deus, ao invés de somente culpar os antepassados e seus pecados como a causa do exílio como julgamento.

Segundo ele, a sociedade sofria de doença crônica e incurável, pois havia abandonado o projeto de Yahweh em troca de uma vida luxuosa e fascinante. Por isso, Ezequiel vê o próprio Deus deixando o Templo (11, 22-24) e largando os rebeldes ao bel-prazer dos amantes.

Com esse programa profético, vislumbrava-se um futuro novo: Deus voltaria para o seu povo (43,1-7), provocando o surgimento de uma sociedade nova.

A doutrina desse profeta busca a renovação interior: é preciso criar, para si, um coração novo e um espírito novo (18, 31); ou ainda, o próprio Deus dará “outro” coração, um coração “novo”, e infundirá, no homem, um espírito “novo” (11,19 e 36, 26).

Daniel, também chamado de Beltessazar, foi um jovem príncipe judeu levado como prisioneiro de guerra pelas tropas do Império Babilônico, em meio à rebelião para a independência de Judá. Ele serviu ao rei Nabucodonosor II, desagradou-o e foi deserdado, voltando a viver com o povo judeu. Ele interpretou os sonhos e visões de reis, e garantia que os maus tempos acabariam e os bons tempos viriam, o que seduzia as pessoas com dificuldades.

De acordo com o livro, Daniel recebeu duas visões durante o primeiro e o terceiro ano do reinado de Belsazar. Nelas, diferentes animais apareciam diante de seus olhos para representar as grandes potências mundiais que sucederiam o Império Babilônico, até um tempo em que seriam destruídas e um domínio celestial seria estabelecido por “alguém semelhante a um filho de homem”.

A profecia mais famosa atribuída a Daniel é a das Setenta Semanas. A narrativa bíblica diz que no primeiro ano do rei Dario, Daniel notou, nos escritos de Jeremias, que o fim dos setenta anos de desolação de Jerusalém estava se aproximando. Ele recebeu uma revelação transmitida pelo anjo Gabriel, anunciando a reconstrução da cidade e a morte de um Ungido. Outra profecia bem conhecida é a do carneiro e do bode, na qual se mostra a derrota e a conquista do Império Medo e do Império Persa pelas mãos de Alexandre, o Grande.

No terceiro ano do governo de Ciro (536 a.C.), Daniel recebeu novas visões apocalípticas. A profecia revelava que o cenário mundial passaria a ser dominado por duas principais potências políticas opostas, cujos líderes foram chamados de “o rei do norte” e “o rei do sul”, possivelmente alguns dos soberanos helenísticos.

Daniel previu a destruição de Jerusalém e do templo e anteviu o sofrimento do povo dos israelitas na Babilônia. E forneceu um novo conceito para a morte, falando da ressurreição dos mortos (Daniel 12, 2) – E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno.”

O Livro de Oseias possui catorze capítulos.

O profeta Oseias exerceu sua atividade no Reino de Israel entre o final do reinado de Jeroboão II e a queda de Samaria (750-722 a.C.). Esse foi um período difícil para Israel, devido a vários acontecimentos importantes, como as conquistas assírias entre 734 e 732 a.C., quatro reis que foram assassinados e à corrupção religiosa e moral.

A pregação de Oseias teve como ponto de partida uma experiência pessoal (capítulos 1 e 3). Ele amava a sua esposa, mas ela o deixou para se entregar a outros amantes. Esse amor não correspondido ultrapassou o nível de frustração pessoal para ser uma enorme força de anúncio: o profeta apresentou a relação entre o Deus, sempre fiel e cheio de amor, e seu povo, que o abandonou e preferiu correr ao encontro dos ídolos.

Oseias passou, então, a denunciar todo tipo de idolatria, que ele chamava de prostituição. Essa comparação será, a partir de então, uma constante nos escritos bíblicos. Tais prostituições, segundo Oseias, não consistiam somente em adorar imagens de ídolos, mas inclusive em fazer alianças políticas com potências estrangeiras que provocavam dependência, exploração econômica e opressão (7, 8-12 e 8,9-10). Prostituições são também os golpes de Estado que preservam interesses de uma pequena minoria (7, 3-7), a confiança no poder militar e nas riquezas (8,14 e 12,9), e todo tipo de injustiças (4,1-2; 6,8-9 e 10,12-13).

Oseias repreendeu principalmente as classes dominantes da sociedade: os reis escolhidos contra a vontade de Jeová, que rebaixaram o povo eleito ao nível dos outros povos e os sacerdotes que espalharam ignorância e, cheios de ganância, levaram o povo à ruína.

O profeta condenou as injustiças e a violência, denunciou uma corrupção moral profunda em Israel (4,1-2, 6, 7-10 e 7,1), a falta de justiça social e a responsabilidade culposa das elites.  Além disso, ele anuncia o amor fiel e misericordioso de Deus para com seu povo.

Alguns estudiosos sustentam que o livro de Joel – que não se refere a nenhum rei, nem ao exílio – foi escrito no final da era monárquica. No entanto, a maioria dos exegetas afirma que foi escrito após o Exílio na Babilônia e após a reconstrução do Templo de Jerusalém, ou seja, aproximadamente em 400 a.C. o livro não se refere a nenhum rei, nem ao Exílio.

A mensagem do livro é o “julgamento que Deus fará contra os inimigos de Israel e, de uma perspectiva escatológica, a vitória final do povo de Deus”.

Pode-se dividir o livro em duas partes: os dois primeiros capítulos narram uma terrível invasão de gafanhotos que devasta a plantação do país, e Joel pede a participação de todos (profetas, sacerdotes e povo), com arrependimento e jejum, para suplicar a Deus que afaste a catástrofe. Deus mostra a sua misericórdia e anuncia a libertação da praga e as bênçãos para uma nova plantação. Como o profeta compara esses gafanhotos a um exército, talvez se possa pensar que ele esteja falando de uma invasão inimiga. Os dois últimos capítulos descrevem o julgamento de Deus sobre as nações e a vitória final.

O que na primeira parte eram gafanhotos ou exército inimigo, na segunda se transforma em exército de Deus e a praga se torna apenas uma imagem do grande dia em que a humanidade prestará contas a Deus. Assim como afastou os gafanhotos, também a misericórdia de Deus, alcançada pelo arrependimento e jejum, transforma o julgamento em dia de libertação e salvação: arrasada a plantação, esta ressurge nova e viçosa. Desse modo, uma praga de gafanhotos observada atentamente serviu para que Joel anunciasse o dia de Javé.

Amós, um contemporâneo mais antigo de Oseias e Isaías, estava ativo por volta de 750 a.C. durante o reinado de Jeroboão II (788-747 a.C.), sendo o primeiro livro profético da Bíblia a ser escrito. Amós viveu no reino de Judá, mas pregou no reino do norte de Israel. Seus principais temas são a justiça social e o julgamento divino.

Aproximadamente no 760 a.C., Amós era um pastor de ovelhas (1, 1 e 7,14) e cultivador de sicômoros (7, 14), um fruto comestível que se parece com o figo.

Há uma breve introdução (1, 2), seguida por uma série de oráculos (1, 3 até 2, 16) contra as nações vizinhas – Damasco, a nordeste; Gaza, no poente; Tiro, a noroeste; Edom, a sudeste e Amon e Moab a leste –, por suas crueldades.

Os capítulos de 3 a 6 condenam Israel por sua hipocrisia (porque apesar de terem cometido idolatria, ainda realizavam as festas do Pentateuco) e injustiça social, merecendo destaque o discurso contra a impenitência de Israel (4, 6-13), as palavras contra o culto de Betel (4, 4-5 e 5, 4-5), as denúncias contra a injustiça social (3, 9-11 e 4,1-3), contra o orgulho e a falsa segurança (3, 1-22; 5, 18-20 e 6, 1-7).

Em cinco visões, Amós anuncia o fim do Reino de Israel Setentrional, porque a situação era insustentável diante de Deus – os gafanhotos 7, 1-3 e o fogo 7, 4-6; o estanho 7, 7-9 e o fim do verão 8, 1-3; a visão do santuário 9, 1-4.

Alguns de seus principais ensinamentos são: orações e sacrifícios não compensam más ações e comportar-se com justiça é muito mais importante que o ritual (Amós 5, 21-24). Não há um verso em seus escritos que admita a existência de outras divindades.

O Livro de Obadias ou Abadias é o menor livro da Bíblia, com apenas um capítulo. Sua autoria é atribuída a Abadias.

Os primeiros nove versículos do livro preveem a destruição total na terra de Edom por Deus. Obadias escreve que essa destruição será completa e Deus fará com que todos os aliados da nação de Edom não só a abandonem como se voltem contra ela, ajudando a expulsar seu povo. Os versículos 10 e 14 explicam que, quando o povo de Deus foi atacado, Edom recusou-se a ajudá-lo, agindo assim como um inimigo. Por esse tratamento, Edom seria coberta de vergonha e destruída para sempre. Os últimos versículos, do 15 ao 21, relatam a restauração de Israel e a aniquilação dos edomitas. O versículo 18 afirma que “ninguém mais restará da casa de Esaú”. Israel se tornará um lugar santo, e seu povo retornará do exílio e habitará a terra que foi ocupada pelos edomitas. O versículo final da profecia coloca Deus como o rei que governará sobre todas as montanhas de Edom.

Jonas, segundo a interpretação tradicional, seria um relato biográfico do profeta Jonas, no qual o Deus de Israel o teria mandado profetizar ao povo de Nínive, capital do Império Assírio, para persuadi-lo a se arrepender ou, caso contrário, a cidade seria destruída dentro de 40 dias. Jonas profetizou no Reino de Israel Setentrional, no século VII, no reinado de Jeroboão II.

O profeta tentou fugir da “presença do Senhor” indo para Jope e navegando para Társis, quando uma tempestade surgiu. Os marinheiros, percebendo que não era uma tempestade comum, lançaram a sorte e descobriram que Jonas era o culpado. Jonas admitiu isso e afirmou que se ele fosse jogado ao mar, a tempestade cessaria. Os marinheiros se recusaram e continuam a remar, mas todos os seus esforços fracassaram, sendo forçados a jogar Jonas ao mar. Como resultado, a tempestade se acalmou e os marinheiros ofereceram sacrifícios a Deus. Jonas foi milagrosamente salvo por ser engolido por um peixe grande, onde passou três dias e três noites. Enquanto estava no grande peixe, Jonas orou para Deus, e se comprometeu a agradecer e a pagar o que prometera. Deus então ordenou que o peixe vomitasse Jonas, e novamente ordenou que Jonas viajasse para Nínive e profetizasse aos seus habitantes.  Depois que Jonas profetizou em Nínive, o povo acreditou em sua palavra e proclamou um jejum. Deus viu seus corações arrependidos e poupou a cidade, humilhada.

Descontente e enfurecido pela humilhação sofrida pelo povo, Jonas saiu da cidade e construiu um abrigo, esperando para ver se a cidade seria ou não destruída. Deus fez com que uma planta crescesse sobre o abrigo de Jonas, para lhe dar alguma sombra. Depois, Deus fez com que uma lagarta mordesse a raiz da planta e ela murchasse. Jonas, sendo exposto a toda a força do sol desmaiou, e pediu a Deus que o matasse.

Miqueias profetizou entre os reinados de Jotão, Acaz, Ezequias e Manassés, entre 750 e 680 a.C., antes e depois da tomada de Samaria pelos assírios, em 721 a.C. O profeta nasceu em Morasti, uma vila no interior do reino de Judá, a oeste de Hebrom.

Esse pequeno livro profético se caracteriza pela condenação dos ricos, por explorarem os pobres, denunciando os governantes, chefes e ricos das cidades de Jerusalém e Samaria. Estes estavam roubando o povo, exigiam presentes e subornos. Miqueias também denunciou a cobiça, os ganhos imorais, a maldade planejada, a balança desonesta e o crime organizado.

A macroestrutura do livro é composta por três partes: as previsões do Juízo e da restauração, e o apelo ao Arrependimento.

Miqueias é conhecido como o defensor dos oprimidos. Ele condenou os ricos latifundiários por tirarem a terra dos pobres, atacou os comerciantes desonestos por usarem balanças fraudulentas, subornarem os juízes e cobrarem juros extorsivos. Até mesmo os sacerdotes e profetas tinham-se deixado levar pela onda de ganância e desonestidade que varria Israel. Miqueias falou de forma extremamente dura com aquele povo, que estava mais preocupado em seguir rituais do que em viver retamente

Após ter descrito os estragos da guerra, o profeta, na cidade, se confrontou com os ricos e com os dirigentes políticos e religiosos. Tendo sua origem em uma pequena vila, Miqueias acusou-os de roubar casas e campos para se tornarem latifundiários e os condenou por mandar matar até mulheres e crianças para se apoderarem das terras.

No livro de Miqueias existem também promessas e esperanças. Entre elas se destaca o anúncio do surgimento do Messias na pequena cidade de Belém. A precisão desse versículo messiânico é impressionante, pois fornece o nome da cidade onde o Messias iria nascer, cerca de 700 anos antes.

O livro de Naum é uma “pronúncia contra Nínive”, capital do Império Assírio. Teria sido escrito algum tempo depois de a cidade egípcia de Nô-Amom (Tebas) sofrer uma derrota no século VII a.C., e completado antes da predita destruição de Nínive, em 632 a.C.

Naum aborda a queda da Assíria, o opressor de Israel. Um salmo inicial mostra Javé como juiz que age na história (1, 2-8). Ele é apresentado como um Deus ciumento e vingador, cheio de furor, e ao mesmo tempo como um Deus bom, o abrigo para os que são perseguidos.

A destruição de Nínive é descrita de maneira grandiosa, não deixando dúvidas sobre quem destrói a capital sanguinária e idólatra: o próprio Deus.